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A sarna ovina é causada por ácaros que vivem na pele do animal, provocando uma dermatite intensamente pruriginosa (que causa coceira) com impacto na produção. Existem diferentes ácaros capazes de causar sarna em ovinos, mas o de maior impacto é o Psoroptes ovis, responsável pela chamada sarna psoróptica. Esse ácaro se alimenta do exsudato da própria reação inflamatória que provoca, se espalha com facilidade entre os animais e é a forma mais frequente da doença no Sul do Brasil. É por isso que, no Rio Grande do Sul, falar em sarna ovina significa falar de sarna psoróptica, embora existam outras. É uma doença altamente contagiosa e de notificação obrigatória (Amarante, Silva e Ragozo, 2015; Doyle e Bidone, 2024).
O combate à sarna, em solo gaúcho, é antigo e remonta a 1942, ano em que o Estado passou a se manter livre da doença por mais de vinte anos. Ela voltou a aparecer em Uruguaiana em 1976 e se espalhou pelo Estado nas décadas seguintes, quase chegando à erradicação mais de uma vez, mas sempre resistindo em algum grau, principalmente na região de fronteira com o Uruguai. O Rio Grande do Sul mantém hoje um programa oficial ativo de vigilância e controle dessa parasitose, o que reflete essa história e explica por que o tema segue relevante justamente aqui, numa intensidade que não se repete do mesmo jeito no restante do país (Amarante, Silva e Ragozo, 2015; Doyle e Bidone, 2024).
O ácaro e seu ciclo de vida
A sarna ovina é causada pelo ácaro Psoroptes ovis, um parasita que cumpre todo o seu ciclo de vida sobre a pele do hospedeiro. Diferentemente de outros ácaros de importância veterinária, como o Sarcoptes scabiei (causador da sarna sarcóptica) e o Chorioptes bovis (sarna corióptica), o P. ovis não escava galerias na pele, ele vive na superfície, alimentando-se do exsudato seroso liberado pela reação inflamatória que ele próprio provoca (Berne e Farias, 2001; Selaive-Villarroel e Osório, 2017).
O ciclo completo, do ovo ao parasita adulto, dura em torno de nove a catorze dias em condições favoráveis, podendo se estender até vinte e um dias quando as condições são menos propícias ao ácaro (Cuore, 2023; Berne e Farias, 2001; Forbes, 2021). Fora do hospedeiro, o ácaro não se alimenta e se desidrata, o que limita sua sobrevida a poucas semanas. Essa sobrevida depende diretamente da temperatura e da umidade do ambiente, pois quanto mais frio e mais úmido, mais tempo o ácaro se mantém viável e capaz de infestar outro animal, chegando a quinze ou dezessete dias nas condições mais favoráveis a ele (Cuore, 2023; Forbes, 2021; Sargison, 2008). É o mesmo padrão que explica por que a doença é mais comum no outono e no inverno, e por isso um piquete, uma instalação ou um equipamento de tosquia usado por animais infestados exige mais cautela justamente nos meses mais frios e chuvosos, quando o risco de reinfestação se estende por mais tempo.
Transmissão
A transmissão ocorre principalmente por contato direto entre animais, mas também acontece de forma indireta, através de lã contaminada, cercas, bretes e máquinas de tosquia, que podem funcionar como veículo de disseminação entre propriedades vizinhas (Berne e Farias, 2001; SUL, 2018; Cuore, 2023).
A doença é marcadamente sazonal, a maioria dos surtos acontece no outono e no inverno, quando o frio e a umidade favorecem a atividade do ácaro e quando a lã tende a estar mais longa, oferecendo a proteção que o ácaro precisa (Cuore, 2023; Sargison, 2008).
Fases da infestação e zonas de refúgio
A infestação por P. ovis passa por fases que ajudam a entender por que a sarna é, ao mesmo tempo, fácil de notar num rebanho já afetado e difícil de erradicar. Na fase inicial, que pode ser chamada de fase subclínica, a população de ácaros cresce devagar e as lesões são mínimas, de modo que o animal costuma não apresentar sinais visíveis. Como o número de ácaros ainda é pequeno, o risco de transmissão é menor nesse momento, embora não seja nulo, pois o parasita já está presente. Em seguida, inicia-se a fase clínica, de crescimento rápido da população, quando os sinais se tornam evidentes e a transmissão para outros animais passa a ocorrer de forma mais acelerada.
Quando o ambiente fica desfavorável ao ácaro, nos meses mais quentes do ano ou logo após a tosquia, ele não desaparece, apenas fica latente em áreas mais protegidas do corpo, como a região inguinal e o períneo (Cuore, 2023). O mesmo pode acontecer com animais que conseguem se defender naturalmente contra o ácaro. Nesses casos, a população de parasitas cai e os sinais melhoram, dando a impressão de que o animal se curou sozinho, mas o ácaro pode continuar latente nessas mesmas áreas de refúgio. Esses focos latentes explicam por que um surto pode voltar a aparecer meses depois, quando o ambiente volta a favorecer o ácaro.
Sinais clínicos
O sinal mais evidente é o prurido intenso (forte coceira), levando o animal a se coçar contra cercas e postes e morder a própria lã, muitas vezes fazendo com que a lã fique presa entre os dentes. O velo fica desarrumado, sujo e manchado, com tufos de lã soltos que costumam ficar presos em cercas e instalações. Com a evolução da doença aparecem lesões exsudativas que formam crostas amareladas, e a lã se desprende com facilidade ao toque nas áreas afetadas, geralmente começando pela região da paleta, pescoço e costado (Berne e Farias, 2001; Selaive-Villarroel e Osório, 2017).
Sem tratamento, a maioria dos animais evolui para um quadro crônico, com queda do estado corporal e perda progressiva de lã, mas os casos mais graves podem cursar com sinais nervosos e podem levar à morte (Cuore, 2023; Sargison, 2008). É um quadro que reforça o peso econômico e de bem-estar animal da doença, além do risco sanitário e das perdas produtivas.
Diagnóstico
A suspeita nasce dos principais sinais clínicos, como forte coceira (prurido), perda de lã, animais que se mordem, lã com aspecto repuxado e lesões crostosas na pele. Contudo, estes sinais também são comuns a outras doenças, como piolheira, fotossensibilização e dermatites. Por isso, a confirmação do diagnóstico se dá pela identificação direta do ácaro da sarna. A piolheira, inclusive, merece atenção à parte por compartilhar sinais e por vezes ocorrer junto com a sarna no mesmo animal, mas os dois têm agentes, ciclos e implicações de manejo diferentes.
A coleta é feita por raspado superficial de pele, com lâmina de bisturi, na zona de transição entre a pele saudável e a lesão úmida ou crostosa, na borda ativa da lesão. Recomenda-se colher amostras de mais de um local ou lesão, porque o ácaro pode estar presente em uns pontos e ausente em outros, e amostrar um único local aumenta o risco de não o encontrar. O material pode ser examinado a campo com lupa de mão, microscópio portátil quando disponível, ou dispondo-o sobre uma superfície de fundo escuro levemente aquecida, o que aumenta o contraste e permite observar os ácaros a olho nu, movimentando-se como pequenos pontos claros (Berne e Farias, 2001; Cuore, 2023). Quando não é possível confirmar no local, a amostra segue ao laboratório, preferencialmente acondicionada entre lâminas seladas ou em recipiente hermético (Sargison, 2008; Doyle e Bidone, 2024).
Encontrar o ácaro no raspado confirma o diagnóstico, mas não o encontrar não descarta a sarna. Em lesões mais antigas ou já em resolução, em infestações ainda iniciais (na fase subclínica) ou em casos de reinfestação, o ácaro pode estar presente no animal sem aparecer na amostra colhida (Sargison, 2008). Por isso, a decisão de tratar não deve depender só de um raspado isolado. Ela combina os sinais clínicos, o histórico do rebanho e, quando possível, uma nova coleta em outros pontos do corpo.
Notificação obrigatória e o PROESO
A sarna ovina é doença de notificação obrigatória e no Rio Grande do Sul ela está entre as enfermidades acompanhadas pelo Programa Estadual de Sanidade Ovina (PROESO), ao lado da piolheira ovina e da epididimite ovina (Bidone, 2020). Diante de um foco confirmado, a propriedade é interditada, e o tratamento se estende ao rebanho afetado e aos rebanhos vizinhos incluídos na área de risco definida pelo serviço oficial.
Notificar a suspeita ao serviço veterinário oficial não é uma formalidade, é parte do manejo sanitário que todo produtor deve realizar. A sarna se espalha com facilidade entre animais e entre propriedades vizinhas, e quanto antes a suspeita for comunicada, mais rápido o foco é contido.
Tratamento
O tratamento se apoia em duas abordagens principais: o banho de imersão, que satura a pele do animal com o princípio ativo por contato direto, e o tratamento sistêmico por via injetável, à base de lactonas macrocíclicas (doramectina, ivermectina e moxidectina). O banho tem ação mais rápida reduzindo a coceira antes, mas exige boas instalações, tende a ser mais trabalhoso e mais estressante para os animais. O tratamento injetável é mais prático e menos estressante, mas a resolução do quadro tende a ser mais lenta (Cuore, 2023).
Qualquer que seja a via escolhida, um único tratamento não é suficiente. Como nenhum dos dois é ovicida, ou seja, não age sobre os ovos já depositados, é preciso repetir a aplicação num intervalo que acompanhe esse ciclo, em geral de sete a dez dias, para atingir os ácaros que eclodem depois da primeira aplicação (Cuore, 2023; Doyle e Bidone, 2024; Berne e Farias, 2001). Esse intervalo não é detalhe menor, é o que garante que o segundo tratamento alcance o que o primeiro não alcançou. A definição do tratamento cabe ao médico-veterinário, que deve considerar o tamanho do rebanho, a categoria dos animais, o estado fisiológico (fêmeas prenhes, por exemplo, pedem cuidado redobrado) e a estrutura disponível na propriedade.
Todos os animais do rebanho precisam ser tratados ao mesmo tempo, mesmo os que não mostram sinais, porque animais em fase subclínica continuam sendo fonte de contágio. Marcar cada animal no momento do tratamento ajuda a garantir que todos recebam as duas aplicações, um animal sem marca na hora do segundo tratamento é sinal de que ficou de fora do primeiro e deve ser isolado até receber novo tratamento no intervalo correto. Duas aplicações são o mínimo recomendado, mas populações de ácaro mais resistentes podem exigir mais tratamentos até a eliminação completa (Cuore, 2023). Depois do tratamento, o rebanho deve ser mantido num piquete sem histórico recente de ovinos por pelo menos vinte dias, evitando reinfestação a partir de ácaros presentes no ambiente.
Sarna e piolheira são doenças distintas, causadas por parasitas diferentes, mas compartilham sinais clínicos semelhantes e podem ocorrer juntas no mesmo animal, o que gera confusão a campo. Vale reforçar, no entanto, que as lactonas macrocíclicas usadas contra a sarna não têm ação sobre o piolho mastigador (Bovicola ovis).
Prevenção e biossegurança
A prevenção custa menos que o controle de um foco já instalado. Na aquisição ou entrada de novos animais, revisar o lote em busca de sinais de coceira ou lã com aspecto repuxado. Se houver sinais em algum animal, não se recomenda a introdução de nenhum animal daquele lote. Mesmo sem sinais clínicos, os animais adquiridos devem passar por quarentena antes de entrar em contato com o restante do rebanho, com revisão periódica em busca dos sinais da doença. Cercas de divisa merecem atenção redobrada quando a propriedade vizinha tem histórico da doença, e equipamentos de tosquia, roupas e calçados usados no manejo de animais infestados precisam ser desinfetados antes de circular entre rebanhos diferentes (Cuore, 2023; Berne e Farias, 2001).
Erros comuns e pontos de atenção
- Tratar só os animais com sinais visíveis: deixar de tratar o rebanho todo permite que animais em fase subclínica continuem carregando o ácaro, e o foco volta a aparecer meses depois.
- Abandonar o segundo tratamento: como nenhum produto tem ação sobre os ovos já depositados, pular a segunda aplicação no intervalo recomendado é a causa mais comum de recidiva, ou seja, do foco voltar a aparecer depois de um tempo em que parecia controlado.
- Usar produto sem indicação em bula para sarna: produtos eficazes contra outros ectoparasitas nem sempre têm ação contra o ácaro da sarna psoróptica. Verificar a indicação em bula evita aplicar um produto que não vai resolver o problema.
- Não isolar ou revisar animais recém-adquiridos: a introdução de animais sem quarentena é uma das portas de entrada mais comuns do ácaro numa propriedade livre da doença.
Perguntas frequentes
O que causa a sarna ovina?
A sarna ovina, no sentido mais relevante para o rebanho gaúcho, é causada pelo ácaro Psoroptes ovis, que vive na superfície da pele do animal. Outros ácaros, como Sarcoptes scabiei e Chorioptes bovis, também causam sarna em ovinos, mas com peso clínico menor.
Sarna ovina tem cura?
Sim. Com tratamento correto, produto adequado, dose, repetição no intervalo recomendado, e isolamento adequado durante o processo, a parasitose é controlável e o foco pode ser eliminado da propriedade.
Por que a sarna aparece mais no inverno?
Porque o frio e a umidade favorecem a atividade do ácaro, além disso tende a ser uma época em que as ovelhas estão com a lã mais longa, que oferece a proteção térmica que ele precisa para se manter na pele do animal.
Sarna e piolheira são a mesma coisa?
Não. São causadas por parasitas diferentes, com ciclos e formas de transmissão distintos, embora possam ocorrer juntas no mesmo animal e sejam facilmente confundidas a campo pela semelhança dos sinais.
Preciso tratar o rebanho inteiro ou só os animais com sinais?
O rebanho inteiro. Animais sem sinais visíveis podem estar em fase subclínica e seguem sendo fonte de contágio para os demais. Além disso o protocolo prevê pelo menos duas aplicações, para todos os animais, simultaneamente, com intervalo entre sete a dez dias.
A sarna ovina precisa ser notificada?
Sim. É doença de notificação obrigatória, e a suspeita deve ser comunicada ao serviço veterinário oficial.
Referências
- AMARANTE, A. F. T.; SILVA, B. F.; RAGOZO, A. M. A. Os parasitas de ovinos. Jaboticabal: FUNEP, 2015.
- BERNE, M. E.; FARIAS, N. A. Sarna. In: RIET-CORREA, F.; SCHILD, A. L.; MÉNDEZ, M. C.; LEMOS, R. A. A. (Ed.). Doenças de ruminantes e equinos. 2. ed. Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 2001. v. 2, p. 52-59.
- CUORE, U. Guía práctica para el diagnóstico, control y prevención de la sarna ovina Psoroptes ovis. Montevidéu: Ministerio de Ganadería, Agricultura y Pesca, División Laboratorios Veterinarios, 2023.
- DOYLE, R. L.; BIDONE, N. de B. Sarna e piolho em pequenos ruminantes. Revista Brasileira de Buiatria, v. 2, n. 3, p. 83-93, 2024.
- FORBES, A. B. Parasites of cattle and sheep: a practical guide to their biology and control. Wallingford: CABI, 2021.
- SARGISON, N. D. Sheep flock health: a planned approach. Oxford: Blackwell Publishing, 2008.
- SECRETARIADO URUGUAYO DE LA LANA (SUL). Manual práctico de producción ovina. Montevidéu: SUL, 2018.
- SELAIVE-VILLARROEL, A. B.; OSÓRIO, J. C. S. (Org.). Produção de ovinos no Brasil. São Paulo: Roca, 2017.
- BIDONE, N. de B. PROESO: Programa Estadual de Sanidade Ovina. Apresentação institucional. Porto Alegre: Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul, 2020.
Material consultado
RIO GRANDE DO SUL. Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural. Instrução Normativa SEAPDR nº 17, de 26 de dezembro de 2022. Dispõe sobre o controle e tratamento das infestações por piolho (piolheira ovina) nos rebanhos ovinos do Estado do Rio Grande do Sul. Diário Oficial do Estado, Porto Alegre, 27 dez. 2022.
Temas relacionados
- Piolheira Ovina (em desenvolvimento)
- Epididimite e Brucelose Ovina
