Resistência parasitária é a capacidade que uma população de parasitos desenvolve de sobreviver aos vermífugos, sendo o desfecho inevitável para aquelas propriedades onde o controle é baseado no uso frequente de anti-helmínticos. A diminuição da eficácia dos vermífugos, fruto da resistência parasitária, é um problema presente na ovinocultura em todo o mundo, e no Brasil não seria diferente. Mais que uma questão de eficiência produtiva hoje, o uso consciente do anti-helmíntico é o que garante que ainda existam ferramentas funcionando para o futuro da atividade.
O que é a resistência e por que ela acontece
Toda vez que um anti-helmíntico é aplicado, ele atua sobre a população de parasitos que está no animal, o que teoricamente deveria eliminar todos os vermes, mas alguns indivíduos carregam certa característica genética que os torna capazes de sobreviver àquela dose. Esses que sobram seguem atuando sobre o animal, se reproduzindo, eliminando seus ovos e contaminando o ambiente, e é assim, geração de vermes após geração de vermes, que uma pequena população parasitária inicial se torna predominante. A cada novo tratamento, cresce a proporção de indivíduos resistentes, e gradativamente o produto deixa de fazer efeito. É por isso que a resistência é praticamente inevitável em qualquer sistema que dependa do anti-helmíntico como ferramenta única de controle, já que quanto mais um princípio ativo é usado, mais rápido essa seleção acontece.
Um conceito importante nesse processo é o de refugia, que é a fração da população de parasitos que não é exposta ao anti-helmíntico. Essa fração funciona como um reservatório de parasitos sensíveis, e quanto maior o refugia, mais diluída fica a proporção de vermes resistentes na população total, retardando o avanço da resistência. Manejos que reduzem o refugia, como tratar o lote inteiro em vez de só os animais que realmente precisam, tendem a acelerar a seleção de resistência.
Embora não exclusivo, a resistência é um tema ligado diretamente à hemoncose, isso porque o Haemonchus contortus tem fecundidade muito alta, uma única fêmea deposita de 5 a 10 mil ovos por dia, e as gerações se sucedem em poucas semanas. Cada geração é uma nova chance de seleção, e quanto mais rápido o parasito se reproduz, mais rápido a população resistente cresce diante do uso contínuo do vermífugo. Esse perfil biológico é detalhado no tema dedicado à hemoncose.
Cada propriedade, sua própria resistência
A resistência que se instala numa propriedade é reflexo direto do histórico de uso do vermífugo naquele local específico, conforme os produtos usados e a frequência dos tratamentos. Além do que acontece dentro da própria propriedade, a aquisição de animais de outras fazendas também pode interferir, já que os vermes que esses animais carregam podem portar a resistência selecionada no rebanho de origem.
Se cada propriedade possui sua própria dinâmica, seja da frequência de uso ou da escolha do anti-helmíntico, a consequência óbvia é que diferentes locais possuem graus de resistência distintos. É por isso que o produto que segue funcionando bem na propriedade vizinha pode já estar comprometido na sua, mesmo a poucos quilômetros de distância. A dica do vizinho ou a recomendação genérica do balconista da agropecuária, por mais bem-intencionadas que sejam, não substituem o teste de eficácia feito na própria propriedade. Não existe produto universalmente eficaz nem universalmente comprometido. Existe o que funciona, hoje, no seu rebanho.
Como chegamos até aqui
Por muitos anos, a recomendação técnica predominante foi o uso constante e frequente de anti-helmínticos, muitas vezes em intervalos fixos, independentemente da real necessidade dos animais. O primeiro de três pontos que sustentavam essa prática é que o vermífugo é o produto que de fato mata o verme. O segundo é que o mecanismo da resistência, hoje bem estabelecido, não era compreendido com a mesma clareza décadas atrás. O terceiro é a expectativa, hoje reconhecida como equivocada, de que novas moléculas anti-helmínticas continuariam surgindo com regularidade, o que tornava a troca de produto uma solução simples sempre que a eficácia caía.
Essa expectativa não se confirmou, já que a base de princípios ativos disponível é curta, e novas classes químicas raramente chegam ao mercado. O monepantel, derivado de aminoacetonitrila, lançado no Brasil em 2012, foi a novidade mais recente em décadas, e mesmo essa molécula nova apresentou rapidamente resistência documentada quando usada sem critério (RAMOS et al., 2018; MACEDO et al., 2023). Isso reforça que trocar de produto não é solução, ainda mais se usado de forma indiscriminada.
Atualmente a realidade da ovinocultura é que boa parte das propriedades apresenta resistência a mais de uma classe de vermífugos. Essa resistência múltipla é documentada e registrada em trabalhos de campo, com propriedades em que a eficácia de tratamento caiu a níveis mínimos, deixando o produtor praticamente sem alternativa de anti-helmíntico eficaz (RAMOS et al., 2018). Essa não é uma realidade de um único Estado, o que reforça que não se trata de um problema pontual ou isolado (MACEDO et al., 2023).
Convivendo com a resistência
O anti-helmíntico continua sendo a ferramenta que efetivamente mata o parasito que está no animal, mas é preciso usá-lo de forma consciente. O uso responsável não elimina a resistência, mas retarda seu avanço de forma significativa, e existem propriedades que mantêm os mesmos princípios ativos funcionando por anos justamente por adotarem os cuidados necessários. O ponto de partida é monitorar, através do teste de eficácia, que compara a contagem de ovos por grama de fezes (OPG) antes e depois de um tratamento e revela se aquele produto específico ainda funciona no seu rebanho. O ideal é repetir esse teste uma vez por ano, com intervalo máximo de dois anos (ver tema OPG e coprocultura).
Um erro que passa despercebido com frequência, motivado pela falta do teste de eficácia, é seguir usando, sem saber, um produto que já está ineficiente. Nesses casos, o produtor tende a perceber que os sinais clínicos não melhoraram, e a resposta comum é tratar de novo, e logo. Essa intensidade de retratamento, motivada por um produto que já não funciona, é um dos fatores que mais pesam na velocidade com que a resistência avança, porque cada aplicação adicional é mais uma rodada de seleção sobre a mesma população de parasitos.
O objetivo de todas essas alternativas é o mesmo, usar menos, ou depender menos, do anti-helmíntico como ferramenta de controle, o que ajuda a preservar sua eficácia por mais tempo. Entre as estratégias já consolidadas estão:
- Melhora nutricional: animais bem nutridos toleram melhor a carga parasitária e respondem com mais eficiência aos desafios sanitários.
- FAMACHA: tratamento seletivo baseado no grau de anemia, que reduz o número de animais tratados e preserva refugia.
- Descarte seletivo: retirar do rebanho os animais mais sensíveis, os que adoecem com maior frequência.
- Consórcio com outras espécies: pastejo contínuo ou intercalado com equinos ou bovinos adultos funciona pela especificidade parasitária, já que boa parte das larvas de ovinos tende a não completar o ciclo nessas espécies.
- Integração lavoura-pecuária: a mecanização do solo e o período sem pastejo reduzem significativamente a contaminação da pastagem.
- Dosificação estratégica (pré-parto): tratar as fêmeas prenhas neste período, quando há um aumento temporário na eliminação de ovos, reduz a contaminação da pastagem.
- Seleção de animais resistentes: aproveitar a variação natural entre animais sensíveis, tolerantes e resistentes à infecção parasitária na escolha de reprodutores e assim introduzir a característica no plantel.
Há ainda frentes que vão contribuir contra a resistência, mas que ainda dependem de maiores avanços e consolidações para se tornarem recomendação. A vacina, licenciada na Austrália desde 2014, tem eficácia parcial, exige múltiplas doses e não tem registro comercial no Brasil. Os fungos nematófagos, que capturam as larvas no bolo fecal, esbarram em alguns desafios do ambiente e numa exigência de fornecimento controlado. E a seleção por marcadores moleculares segue incipiente. São caminhos reais, mas nenhum deles substitui hoje o que já está disponível.
Embora este tema trate a resistência principalmente pelo viés da hemoncose, dado o protagonismo do Haemonchus contortus no desafio parasitário do ovino, isso não significa que o fenômeno se restrinja a ele. O princípio vale para qualquer parasito sob pressão seletiva, não só para os vermes gastrintestinais.
Erros comuns e pontos de atenção
- Depender do vermífugo como ferramenta única de controle. Quanto mais dependermos e usarmos o vermífugo, maior tende a ser o risco de resistência. Atualmente é indispensável um manejo integrado que envolva, em conjunto, outras estratégias para controle da verminose.
- Tratar o lote inteiro em vez de só os animais que precisam. Essa prática reduz a refugia, a parcela de vermes que segue sensível ao produto, e acelera a seleção de resistência.
- Seguir a recomendação do vizinho ou do balconista da agropecuária. Por mais bem-intencionada que seja, ela não substitui o teste de eficácia feito na própria propriedade, já que cada uma tem sua própria dinâmica de resistência.
- Vermifugar em intervalos fixos, sem relação com a necessidade real dos animais. Foi a recomendação predominante por anos, mas tratar o rebanho sem considerar quem de fato precisa do tratamento é um manejo que acelera a resistência.
Perguntas frequentes
O que é resistência parasitária e por que ela acontece?
É a capacidade que uma população de parasitos desenvolve de sobreviver aos vermífugos. Toda vez que um produto é aplicado, os indivíduos com a característica genética que os torna capazes de resistir àquela dose sobrevivem, se reproduzem e passam essa característica adiante. Quanto mais o produto é usado, mais rápido essa seleção acontece e a resistência se estabelece.
Por que o vermífugo que funciona na propriedade vizinha não funciona na minha?
Porque cada propriedade tem sua própria dinâmica de resistência, resultado do histórico de uso do vermífugo naquele local, dos produtos escolhidos e da frequência dos tratamentos. Não existe produto universalmente eficaz nem universalmente comprometido. Existe o que funciona, hoje, no seu rebanho.
Por que não lançam vermífugos novos com mais frequência?
A base de princípios ativos anti-helmínticos disponíveis é curta, e novas classes químicas raramente chegam ao mercado. Por muito tempo existiu a expectativa de que novas moléculas continuariam surgindo com regularidade, mas isso não se confirmou, o que reforça que apenas trocar de produto não é solução para a resistência.
Como sei se o vermífugo ainda funciona no meu rebanho?
Pelo teste de eficácia, que compara a contagem de ovos por grama de fezes (OPG) antes e depois do tratamento e revela se aquele produto específico ainda funciona no seu rebanho. O ideal é repetir esse teste uma vez por ano, com intervalo máximo de dois anos.
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Referências
- MACEDO, L.O.; SILVA, S.S.; ALVES, L.C.; CARVALHO, G.A.; RAMOS, R.A.N. An overview of anthelmintic resistance in domestic ruminants in Brazil. Ruminants, v. 3, n. 3, p. 214-232, 2023.
- RAMOS, F.; PORTELLA, L.P.; RODRIGUES, F.S.; REGINATO, C.Z.; CEZAR, A.S.; SANGIONI, L.A.; VOGEL, F.S. Anthelminthic resistance of gastrointestinal nematodes in sheep to monepantel treatment in central region of Rio Grande do Sul, Brazil. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 38, n. 1, p. 48-52, 2018.
Material consultado
- BONINO MORLÁN, J. Resistencia antihelmíntica de parásitos gastrointestinales en ovinos. Montevideo: SUL, [19–?].
- MEDEROS, A.; MONTOSSI, F.; BANCHERO, G.; RODRÍGUEZ, A. Situación de la resistencia antihelmíntica de los parásitos gastrointestinales en ovinos. El País Agropecuario, Montevideo, p. 66, maio 2007.
- OLIVEIRA, P.A.; RIET-CORREA, B.; ESTIMA-SILVA, P.; COELHO, A.C.B.; SANTOS, B.L.; COSTA, M.A.P.; RUAS, J.L.; SCHILD, A.L. Multiple anthelmintic resistance in Southern Brazil sheep flocks. Brazilian Journal of Veterinary Parasitology, v. 26, n. 4, p. 427-432, 2017.
- OSÓRIO, T.M.; MENEZES, L.M.; ROSA, K.B.; ESCOBAR, R.F.; LENCINA, R.M.; MAYDANA, G.M. Resistência anti-helmíntica em nematódeos gastrointestinais na ovinocultura: uma revisão. Brazilian Journal of Development, v. 6, n. 11, p. 89194-89205, 2020.
Temas relacionados
Verminoses gastrintestinais, Hemoncose, OPG e coprocultura, Vermifugação estratégica, FAMACHA.
