OPG e coprocultura

A verminose gastrintestinal está entre os principais desafios sanitários da ovinocultura, e o diagnóstico correto é a base para as decisões de manejo, direcionado e sustentado pelos exames de laboratório. Dentro desses diagnósticos, dois exames se completam, a contagem de ovos por grama de fezes (OPG) e a coprocultura.

O OPG funciona como um raio-x da carga parasitária do animal. É a contagem direta dos ovos eliminados nas fezes, expressa em ovos por grama, e mostra o quanto aquele animal está eliminando parasitas no momento da coleta. É o exame que informa o grau de infestação do rebanho, de forma individual ou coletiva, auxilia na decisão do uso do anti-helmíntico, além de ser parte do teste de eficácia dos vermífugos.

Só que o OPG tem um limite estrutural, os ovos dos principais gêneros de vermes gastrintestinais, os estrongilídeos, como Haemonchus, Trichostrongylus e Teladorsagia, são morfologicamente muito semelhantes entre si, praticamente indistinguíveis ao microscópio. O OPG conta quantos ovos existem, mas não diz de qual gênero eles são. É aí que entra a coprocultura, que cultiva esses ovos até a fase de larva infectante (L3) para identificar os gêneros presentes na amostra, revelando a composição da carga parasitária, não apenas o seu tamanho.

Como são feitos os exames

O OPG é realizado pela técnica de Gordon e Whitlock, descrita por Molento et al. (2021), que consiste em diluir uma amostra de fezes numa solução saturada, feita com cloreto de sódio ou açúcar, até que os ovos flutuem na superfície e possam ser contados na câmara de McMaster. A contagem é convertida no número de ovos por grama de fezes, o indicador que dá nome ao exame. A técnica admite pequenas variações entre laboratórios na quantidade de fezes, no volume de diluição e na sensibilidade resultante, sem perda de confiabilidade quando o protocolo é seguido de forma consistente.

Já a coprocultura parte da mesma amostra, mas segue outro caminho. Em vez de contar os ovos, ela os cultiva até a fase de larva infectante (L3), incubando as fezes em temperatura e umidade específicas, por 8 a 10 dias. As larvas são recuperadas por decantação ou pelo método de Baermann e identificadas por gênero (MOLENTO et al., 2021).

Coleta e envio de amostras

A coleta é feita diretamente na ampola retal, o que evita contaminação da amostra. O número de animais amostrados costuma seguir uma proporção do rebanho, em torno de 10%, com um mínimo de 8 a 10 animais em lotes pequenos e 15 em lotes médios ou grandes, suficiente para representar a variação individual sem exigir a amostragem de todo o grupo (HASSUM, 2008). Também é comum amostrar por categoria, separando cordeiros, borregas, ovelhas em diferentes fases produtivas e reprodutores, já que a carga parasitária pode variar entre esses grupos dentro do mesmo rebanho.

As amostras devem ser identificadas, mantidas refrigeradas de forma contínua, em isopor com gelo, sem contato direto entre o gelo e as fezes, e enviadas ao laboratório o quanto antes. O prazo de resultado costuma ser rápido, em média 2 dias para o OPG e de 7 a 10 dias para a coprocultura. Como cada laboratório pode ter exigências próprias de quantidade, identificação e prazo, vale sempre confirmar esses detalhes diretamente com o laboratório escolhido antes da coleta.

Interpretação do resultado

A literatura traz o valor de OPG igual ou superior a 500 como referência para indicar tratamento em ovinos (HASSUM, 2008). É um número útil como ponto de partida, mas, em nossa opinião, não deve ser lido de forma automática, a categoria do animal, o momento fisiológico e as condições de ambiente alteram o quanto aquele resultado realmente indica a necessidade de intervenção medicamentosa. O número de referência funciona como um sinal de alerta a ser lido em conjunto com o contexto do animal e do rebanho, não isoladamente.

A amostra, ao ser lida, também pode revelar outros elementos além dos ovos de estrongilídeos, como oocistos de Eimeria, protozoário causador da coccidiose, entre outros. Esses achados merecem atenção quando aparecem no laudo.

Teste de eficácia

O teste de eficácia usa o OPG antes e depois da aplicação de um vermífugo, para verificar se o princípio ativo daquele produto está funcionando na propriedade. A coleta deve ser realizada em grupos por princípio ativo a ser testado, com cerca de 15 ovinos por grupo, suficiente para representar a resposta daquele produto especificamente.

A recontagem costuma ser feita entre 10 e 14 dias após o tratamento, praxe geral entre laboratórios, embora o prazo ideal varie conforme o princípio ativo, já que cada molécula tem farmacodinâmica e cinética próprias (MOLENTO et al., 2021). Por isso, volta a recomendação de alinhar a data exata com o laboratório que receberá as amostras.

A redução percentual do OPG entre as duas coletas indica o desempenho do produto. Reduções acima de 95% indicam alta eficiência, entre 80% e 95% indicam eficácia satisfatória, e abaixo de 80% sugerem falha terapêutica ou resistência parasitária (MOLENTO et al., 2021).

Frequência de uso

No cenário ideal, o OPG deve ser realizado a cada três meses, como forma de acompanhar a carga parasitária do rebanho ao longo do ano. Na prática, a frequência costuma ser menor, ajustada conforme a necessidade e os sinais de alerta observados no campo. Já o teste de eficácia comporta uma regra mais objetiva, por depender diretamente do OPG e orientar a escolha dos princípios ativos usados na propriedade, e o ideal é repeti-lo anualmente, com intervalo máximo de dois anos.

Base genética do OPG

O OPG também tem base genética e pode ser levado em conta na seleção do rebanho. A herdabilidade estimada é de 0,1724, moderada a baixa, o que significa que a seleção por esse critério promove um ganho lento, mas consistente a cada geração. O ponto mais útil é a relação entre o OPG e o escore FAMACHA, de 0,6967, uma correlação alta e positiva. Na prática, isso mostra que selecionar animais com contagem mais baixa tende a produzir também animais com escore FAMACHA mais baixo (MEDRADO; PEDROSA; PINTO, 2021).

Essa base genética ajuda a explicar, inclusive, por que o descarte de animais com OPG persistentemente alto ao longo de testes repetidos, protocolo já detalhado no tema Hemoncose, reduz a média de OPG do rebanho com o tempo (BENAVIDES et al., 2025).

OPG, FAMACHA e outras ferramentas

O OPG permite saber com precisão como está a carga parasitária do rebanho, assim como a coprocultura permite saber quais gêneros estão presentes. Para o uso diário, no entanto, outras ferramentas, como o método FAMACHA, se tornaram aliadas práticas do produtor, por dar um resultado imediato, sem depender de laboratório.

Vale lembrar que o próprio FAMACHA só detecta hemoncose, já que se baseia no grau de anemia causado por esse parasito, e um dos pré-requisitos para seu uso é saber, pela coprocultura, se esse gênero é de fato o dominante no rebanho.

Por isso, essas ferramentas não competem entre si, elas se complementam, cada uma cumprindo um papel diferente no manejo sanitário.

Erros comuns

  • Não dar importância para o OPG: apesar de ferramentas como o FAMACHA terem se tornado mais práticas para o dia a dia, o OPG e a coprocultura continuam sendo a base do método, é a coprocultura que confirma se o Haemonchus é o gênero dominante no rebanho.
  • Falhar na coleta ou no envio da amostra: erros na quantidade de animais amostrados, na identificação dos animais e da amostra, no armazenamento ou no prazo de envio ao laboratório comprometem o resultado.
  • Achar que o OPG identifica o gênero do parasita: essa função é da coprocultura, já que os ovos dos estrongilídeos são muito parecidos entre si.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre OPG e coprocultura?

O OPG conta quantos ovos de nematódeos existem numa grama de fezes, indicando a carga parasitária do animal. A coprocultura cultiva esses ovos até a fase de larva infectante para identificar os gêneros presentes na amostra. Um mede quantidade, o outro identifica quem está por trás dela.

Qual a importância do OPG?

O OPG é o exame que permite saber com precisão como está a carga parasitária do rebanho, de forma individual ou coletiva. É a base para decidir quando tratar, para conduzir o teste de eficácia dos vermífugos e até para orientar a seleção de animais mais resistentes.

Qual a importância da coprocultura?

A coprocultura identifica quais gêneros de estrongilídeos estão presentes no rebanho, informação que o OPG sozinho não fornece, já que os ovos desses parasitas são praticamente indistinguíveis ao microscópio. Essa identificação orienta desde a escolha do tratamento até a confiabilidade de ferramentas como o FAMACHA, que depende de saber se o Haemonchus é o gênero dominante.

Com que frequência devo fazer OPG no rebanho?

No cenário ideal, o OPG seria feito a cada três meses, para acompanhar a carga parasitária ao longo do ano. Na prática, a frequência costuma ser menor, ajustada conforme a necessidade e os sinais de alerta observados no campo.

Outras ferramentas substituem o OPG?

Para o uso diário, ferramentas como o FAMACHA se tornaram aliadas práticas, por darem um resultado imediato sem depender de laboratório. Mas elas não substituem o OPG nas decisões que exigem precisão ou até para conduzir o teste de eficácia.

Quanto tempo demora o resultado do OPG e da coprocultura?

O resultado do OPG costuma sair em média em 2 dias. A coprocultura, por depender do cultivo das larvas, leva mais tempo, entre 7 e 10 dias. Cada laboratório pode ter prazos próprios, por isso vale confirmar antes de enviar a amostra.

OPG em ovinos, contagem de ovos por grama, coprocultura ovina, diagnóstico de verminose ovina, Gordon e Whitlock

Referências

BENAVIDES, M. V.; SOUZA, C. J. H. de; MORAES, J. C. F.; OLIVEIRA, J. C. P. Como reduzir a média da contagem de ovos por grama de fezes (OPG) nos rebanhos ovinos. Bagé: Embrapa Pecuária Sul, 2025. (Comunicado Técnico, 112).

HASSUM, I. C. Instruções para coleta e envio de material para exame parasitológico de fezes: OPG e coprocultura para ruminantes. Bagé: Embrapa Pecuária Sul, 2008. (Comunicado Técnico, 64).

MEDRADO, B. D.; PEDROSA, V. B.; PINTO, L. F. B. Meta-analysis of genetic parameters for economic traits in sheep. Livestock Science, v. 247, art. 104477, 2021.

MOLENTO, M. B.; PONTAROLO, D. V.; PIRES, L. S. A.; DALL’ANESE, J.; VIEIRA, D. L.; BRANDÃO, Y. O.; AQUINO, U. Y. Y. T. de. Exames coproparasitológicos em ruminantes: uma abordagem espaço-temporal. Revista Brasileira de Buiatria, v. 4, n. 1, 2021.

Material consultado

Protocolo prático de coleta de amostras para teste de resistência parasitária, material de referência usado pela equipe MAISOVINOS.

Temas relacionados

  • Hemoncose
  • FAMACHA
  • Verminoses gastrintestinais
Rolar para cima