Esquila pré-parto é a retirada da lã da ovelha realizada durante a gestação, antes do parto, numa janela de tempo que varia conforme o objetivo do produtor. Esquilar o animal todo ano é um manejo necessário para os ovinos lanados, e aqui ajustamos apenas o momento em que ele acontece, pra que traga benefício pro sistema produtivo como um todo, pra ovelha, pro cordeiro que ainda está por nascer e pra lã.
A técnica é registrada desde o final da década de 40, quando fazendeiros da região de Otago, na Nova Zelândia, começaram a tosquiar suas ovelhas antes da parição. O motivo, na época, era puramente têxtil, pois a lã tosquiada antes do parto evitava o ponto de fragilidade que a parição causa na fibra. Mesmo com esse foco exclusivo na lã, os benefícios no cordeiro já apareciam como observação secundária, cordeiros mais fortes e ovelhas mais dispostas a buscar abrigo, sem que ninguém soubesse explicar por quê (Coop e Drake, 1949).
Na ovinocultura atual, não podemos abrir mão da produção de cordeiros, e a técnica que antes já se justificava apenas pela lã se torna imprescindível, pois além da qualidade da fibra auxilia na sobrevivência da cria, potencializando todo o sistema com o simples ajuste de quando realizar a tosquia.
Mecanismos que ajudam a entender
Ao esquilar a ovelha, removemos a lã, que tem entre suas características ser um isolante térmico, e com isso mexemos na regulação de temperatura do animal. Ao perder mais calor pro ambiente, a ovelha libera cortisol, hormônio que desencadeia uma série de reações metabólicas e hormonais diante desse desconforto térmico passageiro. A primeira é a mobilização da própria reserva de gordura corporal como fonte de energia. Outra é uma resistência temporária à insulina, que faz mais glicose circular no sangue. Por fim, alguns autores citam um aumento temporário no consumo voluntário de forragem como mais uma reação que contribui pra equilibrar o desconforto térmico.
Se a ovelha estiver gestante, essa glicose extra que passa a circular no sangue por causa da esquila é captada pelo feto, servindo como um aporte extra de energia que ele não receberia se a ovelha não tivesse sido tosquiada. Esse aporte vira reserva de energia no cordeiro, principalmente glicogênio hepático e muscular, além de gordura marrom, o tecido que ele usa como fonte de calor nas primeiras horas de vida. As duas reservas têm relação direta com o vigor do cordeiro e a taxa de sobrevivência nas primeiras horas de vida.
A gestação de uma ovelha dura em média 150 dias, e o benefício de cordeiros com maior vigor é obtido independente de quando a esquila for feita. Já a esquila pré-parto realizada até os 90 dias de prenhez coincide com o momento em que os tecidos placentários estão em desenvolvimento, e a circulação extra de glicose tende a favorecer o crescimento desses tecidos, responsáveis pela troca de nutrientes entre mãe e feto, contribuindo assim para um maior peso ao nascer do cordeiro. Ainda sobre o tempo de gestação, alguns autores registram um leve aumento da duração da prenhez em ovelhas tosquiadas no pré-parto, fator não bem esclarecido, mas com indício de contribuir para a maturidade do recém-nascido (Banchero et al., 2010; Cam e Kuran, 2004).
Os benefícios da esquila pré-parto
Do desconforto térmico ao mecanismo da glicose circulante, adotar a esquila no período pré-parto promove uma série de benefícios, pra matriz, pro manejo e principalmente pro cordeiro. A lista abaixo reúne alguns motivos pra considerar a técnica, dos efeitos mais consistentes aos mais variáveis.
- Vigor ao nascer. Entende-se por vigor a característica de nascer e prontamente ficar de pé, buscar a mãe e conseguir mamar, benefício mais bem estabelecido na literatura sobre esquila pré-parto e com impacto direto na sobrevivência neonatal. Cordeiros de ovelhas tosquiadas durante a gestação apresentam essas características com mais frequência (Banchero et al., 2010).
- Peso ao nascer. É o peso do cordeiro no momento do parto, indicador direto de como ele foi nutrido durante a gestação e um dos fatores mais associados à sua sobrevivência neonatal. Quando a esquila pré-parto é feita nos primeiros três meses de gestação, o cordeiro tende a nascer de 8 a 23% mais pesado, a depender da categoria da ovelha e do tipo de parto (Banchero et al., 2007), embora a magnitude varie conforme manejo, regiões e raças (Sphor et al., 2011; Guyoti et al., 2015).
- Sobrevivência neonatal. Dois fatores com alta influência sobre a sobrevivência dos recém-nascidos são vigor e peso ao nascer, e a esquila pré-parto age sobre os dois, reduzindo as perdas neonatais, em especial por inanição e hipotermia.
- Mobilidade e facilidade de parto. Sem o peso extra da lã, que aumenta ainda mais se estiver molhado, a ovelha se movimenta com mais liberdade, conseguindo deitar, levantar e ajustar-se, o que na parição tende a reduzir o risco de distocia (parto difícil).
- Busca por abrigo. Ovelhas tosquiadas, por estarem mais desprotegidas sem a lã, tendem naturalmente a procurar locais mais protegidos para parir, o que ajuda a proteger o cordeiro recém-nascido do vento e da chuva nas primeiras horas de vida.
- Higiene. Sem lã ao redor do períneo e do úbere, a chance de restos placentários ficarem aderidos é menor, assim como possíveis lesões ficam expostas, o que facilita a identificação pelo manejador e reduz o risco tanto de miíases (bicheira) quanto de atrair predadores.
- Produção de leite. Alguns estudos apontam que ovelhas esquiladas pré-parto registraram mais leite disponível ao longo da lactação (Sphor et al., 2011; Guyoti et al., 2015), mas esse achado não se repete em todos os trabalhos sobre o tema, e o mecanismo que sustentaria esse efeito ainda não está bem esclarecido.
A dimensão e a consistência dos efeitos gerados pela esquila pré-parto podem oscilar, pois fatores como ambiente, alimentação, escore de condição corporal, desafios sanitários e categorias de animais também exercem influência sobre os benefícios. Temas como colostro e peso ao desmame oscilam entre os trabalhos que se propõem a avaliá-los, por isso ficaram de fora desta lista.
O impacto mais direto e melhor sustentado da tosquia pré-parto segue sendo o vigor e, quando realizada até os 90 dias de gestação, também o peso ao nascer, ambos com influência positiva sobre a sobrevivência dos cordeiros nas primeiras horas de vida.
A lã
A esquila pré-parto nasceu com foco na lã, ainda na década de 40, quando produtores perceberam que a fibra formada perto do parto tinha aparência mais frágil, e que ao ser processada havia tendência de gerar ruptura e queda de qualidade. O que antes era empírico, a ciência depois explicou como resultado da alta demanda nutricional do periparto e da lactação, que compete por nutrientes com a lã e ocasiona esse ponto de fragilidade exatamente nesse período (ASI, 2002).
A alternativa encontrada na época se mantém válida até hoje, já que antecipar a esquila para antes desse período crítico da parição desloca o ponto frágil, que antes ficaria no meio da mecha, para a ponta, local que não gera prejuízo industrial nem perda de qualidade.
Além de todos os benefícios já vistos, que por si só já justificariam adotar a esquila pré-parto em qualquer propriedade, para quem tem lã com aplicação têxtil e valor comercial, a técnica se torna indispensável para se obter uma fibra com o máximo de sua qualidade.
Cuidados para se ter êxito
Histórica e tradicionalmente as tosquias eram realizadas entre a primavera e início do verão, época que coincidia com o período de cria ao pé ou desmame, e para tosquiar o animal ele era contido e imobilizado, com as patas atadas, o que chamamos de maneado. Essa esquila maneada se mostrava eficiente diante do cenário em que era realizada, já que os animais estavam fora do período reprodutivo e o desconforto gerado pelo método não gerava maiores prejuízos ao animal.
Ao ajustar o período da esquila para ser feita durante a gestação, percebeu-se que a técnica também precisava se adaptar, evitando tanto manear o animal quanto depositar qualquer peso ou pressão sobre o abdômen da matriz gestante. Entre diversas variações de tosquia, a técnica Tally-Hi foi a que mais prosperou, pois organizou a esquila numa sequência definida de movimentos e cortes (Ungerfeld e Freitas-de-Melo, 2021).
Além de preservar o bem-estar animal, por manter o animal desmaneado, sem exigir força nem pressão sobre a ovelha, a forma como a lã é retirada no método Tally-Hi possibilita que o velo saia inteiro, sem recortes ou perdas.
Escolher a técnica correta de esquila é um passo fundamental, mas o sucesso do manejo como um todo ainda depende de uma série de outros cuidados, em especial ligados à nutrição. Vimos que, ao ser esquilada, a ovelha passa a mobilizar reservas corporais, por isso é importante que ela esteja em bom escore de condição corporal (ECC), sendo 2,5 o mínimo aceitável (Freitas-de-Melo et al., 2025), além da ressalva de que tanto ECC baixo quanto ECC alto são fatores de risco para a toxemia da gestação, doença que, uma vez instalada, pode levar à morte da ovelha.
Ainda dentro da nutrição, a esquila tende a estimular o aumento do consumo voluntário nos dias subsequentes, portanto é preciso garantir que haja disponibilidade compatível de alimento, em oferta e qualidade, para aproveitarmos o benefício do estímulo. Outro ponto de atenção é quanto ao período de jejum que envolve a tosquia, não devendo ultrapassar 6 a 8 horas em ovelha prenha (Franz, 2004), já que muitas vezes os animais são encerrados em um turno para serem esquilados no turno seguinte, ou encerrados em quantidade superior ao que os esquiladores irão trabalhar, promovendo um jejum prolongado.
A previsão do tempo também merece atenção antes de esquilar, para evitar que a tosquia coincida com uma virada brusca de temperatura. O frio sozinho costuma ser bem tolerado, mas virada de tempo somada à chuva logo depois da esquila potencializa a perda de calor que a ovelha já enfrenta por ter sido esquilada. Oferecer piquetes com proteção natural, como mata ou capão de árvores, nos primeiros dias após a tosquia, ajuda a reduzir esse risco.
Vale também conferir o animal logo após a esquila em busca de pequenos cortes que a tesoura possa ter causado. É um cuidado simples, e a própria época em que a esquila pré-parto costuma acontecer já ajuda, pois no frio a atividade das moscas causadoras de bicheira cai bastante, reduzindo o risco de miíase nesses cortes.
Erros comuns
- Esquilar ovelha gestante maneada. Aplicar o método tradicional, com o animal contido e imobilizado, numa ovelha prenha promove pressão e peso sobre o abdômen e pode causar reabsorção embrionária ou aborto.
- Esquilar sem considerar o ECC. Tosquiar uma ovelha com escore de condição corporal muito baixo ou muito alto, em terço final de gestação, aumenta o risco de toxemia da prenhez, doença que pode levar à morte do animal.
- Não ajustar a oferta de alimento. A esquila causa um aumento temporário do consumo voluntário da ovelha, e deixar de oferecer alimento em quantidade e qualidade compatíveis é abrir mão deste benefício.
- Ignorar a previsão do tempo. Esquilar pouco antes de uma virada brusca de temperatura, principalmente se seguida de chuva, expõe a ovelha recém-tosquiada a uma perda de calor que ela pode ainda não estar preparada para compensar.
- Jejum prolongado durante a tosquia. Encerrar os animais de um turno para o outro, ou em quantidade maior do que os tosquiadores conseguem atender no dia, estende o jejum de forma desnecessária, comprometendo a ovelha gestante.
Perguntas frequentes
O que é esquila pré-parto?
É a esquila da ovelha feita durante a gestação, e não depois do parto ou fora desse período, deste modo permitindo a matriz parir sem o velo, o que melhora a qualidade da lã, facilita o manejo e, principalmente, aumenta a sobrevivência dos cordeiros.
Esquilar a ovelha prenha faz mal, pode causar aborto?
Esquilar não é o problema, pois o risco está no método escolhido. Contenção e imobilização das pernas, como na esquila tradicional maneada, podem causar perdas gestacionais. Esquilar pelo método Tally-Hi, em que a ovelha fica solta durante a tosquia, evita esse risco.
Qual a melhor época pra esquilar a ovelha antes do parto?
Depende do objetivo da propriedade. O ganho em vigor do cordeiro ao nascer acontece em qualquer fase da gestação em que a esquila for feita, mas o ganho em peso ao nascer só é observado quando a esquila é feita nos primeiros 90 dias.
Preciso mudar a forma de esquilar quando a ovelha está prenha?
Sim. O método tradicional, com a ovelha contida e as pernas presas, não é indicado durante a gestação. Técnicas como a Tally-Hi, sem contenção, são as recomendadas nesse período.
Quais os principais benefícios que posso esperar ao realizar a esquila pré-parto?
Os efeitos mais consistentes são o maior vigor do cordeiro ao nascer, presente em qualquer momento da gestação em que a esquila for feita, e o maior peso ao nascer, quando feita nos primeiros 90 dias, o que juntos aumentam a chance de sobrevivência neonatal. A esquila também evita a quebra da fibra da lã, e facilita o manejo da ovelha, já que ela chega ao parto sem o peso e o volume do velo.
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Referências
- AMERICAN SHEEP INDUSTRY ASSOCIATION (ASI). Wool. In: Sheep Production Handbook. v. 7. Englewood: ASI, 2002.
- BANCHERO, G.; MONTOSSI, F.; DE BARBIERI, I.; QUINTANS, G. Esquila preparto: una tecnología para mejorar la supervivencia de corderos. Revista INIA, n. 12, p. 2-5, set. 2007.
- BANCHERO, G.; VÁZQUEZ, A.; MONTOSSI, F.; DE BARBIERI, I.; QUINTANS, G. Pre-partum shearing of ewes under pastoral conditions improves the early vigour of both single and twin lambs. Animal Production Science, v. 50, p. 309-314, 2010.
- CAM, M. A.; KURAN, M. Shearing pregnant ewes to improve lamb birth weight increases milk yield of ewes and lamb weaning weight. Asian-Australasian Journal of Animal Sciences, v. 17, n. 12, p. 1669-1673, 2004.
- COOP, I. E.; DRAKE, J. H. Shearing ewes before lambing. Canterbury Agricultural College, 1949.
- FRANZ, N. Esquila preparto. Corrientes: INTA E.E.A. Mercedes, 2004.
- FREITAS-DE-MELO, A.; CASURIAGA, D.; PINTO-SANTINI, L.; NEIMAUR, K.; CAL-PEREYRA, L.; RODRIGUEZ-PIÑÓN, M.; FONSÊCA, V. F. C.; UNGERFELD, R. Esquila preparto en ovejas y sus efectos sobre el metabolismo energético y la termorregulación de ovejas y corderos. Veterinaria (Montevideo), v. 61, n. 223, 2025.
- GUYOTI, V. M.; FARIAS, M. S.; DALMOLIN, M. L.; POLI, C. H.; SCHMIDT, V.; GONZALEZ, F. D. Efeito da esquila durante a gestação sobre o desempenho produtivo no período pós-parto em ovelhas mantidas em manejo extensivo. Ciência Animal Brasileira, v. 16, n. 2, p. 217-224, 2015.
- SPHOR, L.; BANCHERO, G.; CORREA, G.; OSÓRIO, M. T. M.; QUINTANS, G. Early prepartum shearing increases milk production of wool sheep and the weight of the lambs at birth and weaning. Small Ruminant Research, v. 99, p. 44-47, 2011.
- UNGERFELD, R.; FREITAS-DE-MELO, A. Esquila en ovinos: adaptaciones fisiológicas, estrés y bienestar animal. Albéitar, n. 244, 2021.
Temas relacionados
- Hipotermia e inanição em cordeiros
- Escore de condição corporal (ECC)
- Toxemia da gestação
- Manejo pré-parto
