Vermifugação estratégica, seletiva e supressiva

Por décadas uma lógica simples direta e aparentemente incontestável guiou o manejo sanitário dos ovinos ao redor do mundo, a de que o que mata o verme é o vermífugo. Sabendo que a verminose é um problema sério e constante, e que de fato o produto que elimina o parasito é o vermífugo, por que não aplicá-lo com regularidade, protegendo o rebanho de forma contínua, com intervalos curtos entre aplicações, sem deixar brechas?

Foi exatamente essa ideia que sustentou, por muito tempo, a prática de medicar todos os animais em intervalos fixos e frequentes, independentemente de qualquer sinal de necessidade individual. E a verdade é que a estratégia funcionou, durante um período, depois parou de funcionar, e a razão desse fracasso é hoje um dos temas mais estudados da parasitologia veterinária. A resistência aos anti-helmínticos, hoje disseminada em boa parte dos rebanhos ovinos, em especial aqui no Rio Grande do Sul, é o cenário vivido por muitas propriedades.

Este guia aborda três formas de usar o vermífugo, partindo do modelo mais antigo, explicando por que ele caiu em desuso, até chegar às alternativas que vieram para substituí-lo. Na prática, o problema é um desafio complexo, que demanda um manejo integrado de ações em busca de conseguirmos conviver com a verminose.

Três formas de decidir quando vermifugar

Optamos por separar o uso dos vermífugos em três formas, embora a literatura não tenha consenso nos termos, entendemos que esta forma é a que mais se aproxima da que observamos nas propriedades. Cada uma carrega uma lógica própria, e entender essa lógica importa mais do que decorar o termo, já que os nomes podem mudar entre os autores, mas o raciocínio por trás dele é o que orienta a decisão no dia a dia.

Vermifugação supressiva: nela tratamos todos os animais do rebanho, o lote todo, em intervalos fixos e frequentes. É o modelo histórico, adotado por décadas, e hoje reconhecido como um dos principais responsáveis pela disseminação da resistência aos vermífugos.

A escolha por um intervalo curto entre aplicações, historicamente em torno de vinte e um dias, provavelmente vem de um raciocínio simples e, à época, coerente. O ciclo biológico do Haemonchus contortus, principal parasito em ovinos, gira em torno desse mesmo período entre a ingestão da larva pelo animal e o início da eliminação de novos ovos nas fezes. Se o parasito completa seu ciclo a cada três semanas, dosificar nesse intervalo parecia, à primeira vista, a forma mais lógica de controlar a verminose.

Vermifugação estratégica: neste modelo o rebanho também é tratado em lote, porém em momentos específicos, escolhidos porque coincidem com uma janela de risco parasitário elevado ou que justifique ação para reduzir a carga parasitaria.

Embora também trate todos os animais, a vermifugação estratégica difere da supressiva pela frequência e motivação, aqui ela não é repetida em intervalos fixos e sim quando houver justificativa técnica, concentrando a pressão do produto nos momentos em que ela for compensatória.

Vermifugação seletiva: aqui é onde temos a maior mudança, pois o tratamento é direcionado apenas para os animais que mostram sinais clínicos, avaliados de forma individual e por critério objetivo. Dentre os modelos dessa alternativa o mais difundido é o método FAMACHA.

A seletiva leva a lógica do uso do anti-helmíntico a um passo além da estratégica, a decisão deixa de olhar para o calendário ou para o rebanho como um todo, e passa a olhar para cada animal, individualmente, a cada avaliação.

Por que o modelo supressivo se mostrou equivocado

Do surgimento dos vermífugos até meados dos anos 60, o modelo supressivo, onde todos os animais são tratados simultaneamente e em intervalos curtos, foi o método divulgado e adotado, o que era, até então, uma solução segura. Só mais tarde se entendeu que essa lógica escondia um problema relacionado diretamente à forma como o próprio anti-helmíntico age sobre a população de parasitos.

Os vermífugos se dividem em grupos químicos, cada um com uma forma própria de agir sobre o parasito, mas todos com o mesmo objetivo, eliminar os vermes. Ao entrar em contato com o parasito, qualquer vermífugo só atuará sobre os indivíduos sensíveis àquele princípio ativo, independentemente do produto utilizado.

Essa relação com o uso contínuo de vermífugos mudou quando se entendeu que, mesmo antes de qualquer tratamento, uma pequena fração dos vermes carrega naturalmente condições que a tornam menos sensível, ou até insensível (resistente), àquele anti-helmíntico. São exatamente esses indivíduos que sobrevivem a cada tratamento, continuam colocando ovos, multiplicam-se e, geração após geração, se tornam predominantes na população, até que o produto perde eficácia, porque a população de vermes já é resistente a ele.

Ao vermifugar todos os animais do rebanho, quanto maior for a frequência de uso, mais rápido tende a se estabelecer essa população de parasitos resistente. Entre as verminoses gastrintestinais, essa dinâmica é potencialmente mais grave para o Haemonchus contortus do que nas demais parasitoses, por três características do parasito, sua fecundidade (uma fêmea chega a depositar milhares de ovos por dia), seu ciclo curto entre o ovo e o verme adulto (de cerca de três semanas) e sua capacidade de sobreviver no ambiente (ovos e larvas podem resistir, em condições favoráveis, por meses).

Refugia, a proteção que o modelo supressivo elimina

Não tratar uma parcela dos animais significa não expor os vermes presentes neles ao vermífugo, esses vermes seguem colocando ovos, que se tornam larvas e são ingeridos pelos ovinos, mantendo viva uma população de parasitos ainda sensível, justamente por nunca terem sido expostos ao anti-helmíntico. Essa dinâmica é o que a parasitologia chama de refugia. Além dos vermes presentes nos animais não tratados, a população de vermes ainda no campo, sejam ovos ou larvas, também compõe a refugia, já que os anti-helmínticos atuam apenas sobre os vermes que estão dentro do hospedeiro.

Essa população não exposta funciona como um banco genético de diluição. Quando nem todos os parasitos de uma pastagem estão sob pressão do produto, os poucos indivíduos resistentes que sobrevivem ao tratamento se misturam, na geração seguinte, a uma população majoritariamente sensível, o que mantém baixa a proporção de genes de resistência circulando no rebanho.

O modelo supressivo elimina justamente essa proteção, já que ao tratar todos os animais a população de parasitos presente nos hospedeiros fica sob pressão de seleção simultânea. Os poucos sobreviventes, resistentes, não têm mais uma população sensível para diluir seus genes, e cada novo tratamento acentua essa seleção.

A pressão do uso supressivo é, portanto, o manejo que leva à resistência anti-helmíntica, cujo primeiro relato no Brasil é de 1967, no Rio Grande do Sul, envolvendo o princípio ativo tiabendazol (MACEDO et al., 2023). Dos anos 60 até hoje, o cenário se espalhou e se agravou, e hoje são raras as propriedades onde os principais princípios ativos ainda mantêm plena eficácia.

O caso descrito por Souza (1997) no Paraná ilustra bem essa situação, segundo o autor, rebanhos comerciais do estado recebiam aproximadamente doze vermifugações por ano, chegando a vinte e quatro em criatórios de reprodutores. O estudo apontou que a resistência estava presente em todos os rebanhos testados, e que a frequência de tratamento foi, provavelmente, o fator que mais contribuiu.

Em momentos chaves, o uso estratégico

Ao entendermos que o modelo supressivo, onde medicamos todos os animais e eliminamos a refugia, é equivocado, pode parecer contraditório falar em vermifugação estratégica, já que nela também dosificamos o lote inteiro. A diferença está em dois pilares, a estratégica é uma intervenção pontual, não contínua, e parte da escolha de usar o anti-helmíntico atrelada a uma janela de risco ou a um momento produtivo que justifique a ação.

A dinâmica e a realidade de cada propriedade vão apontar quando é pertinente adotar uma vermifugação estratégia, abaixo listamos alguns momentos que entendemos como passiveis de serem avaliados:

  • Pré-parto: nas semanas próximas ao parto, a fêmea passa por um relaxamento da imunidade que aumenta a eliminação de ovos de parasito nas fezes (MINHO, 2014). Por coincidir com o momento que a matriz está debilitada, e entendendo que estes ovos vão contaminar o campo que logo será povoado pelos cordeiros, categoria sensível a verminose, a vermifugação estratégica pré-parto justifica ser avaliada.
  • Desmame: a separação da mãe e a passagem a depender inteiramente da pastagem coincidem com um momento de estresse e de imunidade ainda em formação no cordeiro. Por se tratar também da categoria de melhor conversão alimentar do rebanho, perder desempenho para a verminose nessa fase custa mais caro, justificando avaliar a vermifugação estratégica.
  • Pré-encarneiramento: sabendo que a verminose compete com o organismo por nutrientes, reduzir a carga parasitária das matrizes nas semanas que antecedem a estação de monta tende a favorecer a ciclicidade, a taxa de ovulação e a gestação em si. Embora características ambientais e de manejo possam pesar em determinados anos, a vermifugação estratégica pré-encarneiramento pode ser uma alternativa a ser considerada.
  • Clima: a pastagem pode concentrar até 90% de toda a carga parasitária de uma propriedade (SIMÕES et al., 2022). Em períodos de estiagem essa população fica represada no bolo fecal, que funciona como um microclima protegido, e quando a chuva volta, principalmente de forma concentrada e associada ao calor, boa parte do que estava retido se desenvolve num intervalo curto. Por isso, a depender do clima e das condições, uma vermifugação estratégica que coincida com esses momentos de maior desafio e contaminação deve ser ponderada.
  • Alimentação e lotação: pastagens baixas ou escassas, seja por lotação mais alta ou por crescimento lento do pasto, obrigam os animais a pastejar mais rente ao solo e com maior intensidade, aumentando a exposição às larvas infectantes disponíveis na forragem. A vermifugação estratégica nesses momentos de maior pressão de pastejo justifica ser avaliada.
  • Entrada de novos animais: ao comprar animais é possível que eles carreguem consigo vermes resistentes, portanto cabe avaliar a utilização de uma vermifugação estratégica durante o período de quarentena, mesmo o animal não apresentando sinais clínicos de verminose.

Seletiva para o dia a dia

Quais animais, dentro do rebanho, precisam ser tratados? Até aqui falamos em vermifugação baseado em calendário fixo (supressiva) ou em momentos chaves (estratégica), a vermifugação seletiva inverte a pergunta olhando agora para o animal e a sua necessidade ou não de ser medicado.

Se, em um mesmo ambiente é esperado que animais respondam de maneiras diferentes diante do desafio da verminose, a lógica agora é identificar e definir quais animais precisam de tratamento. O método seletivo é o que mais preserva a refugia, e, portanto, mais preserva a vida útil dos princípios ativos dos vermífugos, e traz como benefício indireto uma redução das despesas com o menor uso dos anti-helmínticos. Por outro lado, este método exige um olhar mais atento e próximo ao rebanho, que precisa ser avaliado com frequência e critério de forma individual.

Dentre as ferramentas utilizadas para essa avaliação individual, a mais difundida é o método FAMACHA, um sistema atrelado a um cartão oficial que compara a coloração da mucosa do animal e relaciona o grau de anemia com a necessidade do uso de anti-helmíntico (Van Wyk e Bath, 2002). Contudo o método FAMACHA avalia apenas a verminose causada pelo Haemonchus contortus, principal verme da ovinocultura no Sul do Brasil.

Uma ferramenta mais abrangente que também pode ser usada para a avaliação individual é a “Avaliação Dos Cinco Pontos” (do inglês Five Point Check). Além da coloração da mucosa ocular, já usada no FAMACHA, avaliam-se o edema submandibular, o escore de condição corporal, o escore fecal e a presença de secreção nasal (SIMÕES et al., 2022). Dessa forma o método amplia o alcance da avaliação individual cobrindo também problemas que não estão diretamente ligados à hemoncose.

Adotar a vermifugação seletiva significa aceitar uma convivência maior com a verminose no rebanho, o que só é seguro quando vem acompanhado de critérios consistentes, avaliações frequentes, capazes de identificar a tempo os animais que necessitam de tratamento.

Convivendo com a verminose

A ideia de eliminarmos a verminose através do uso de anti-helmínticos não é real em modelos de criação a pasto. A grande maioria das formas infectantes do parasita está na pastagem, não dentro do animal, além disso, os vermes possuem mecanismos eficientes de sobrevivência e manutenção. Por isso, o controle depende de manejo, e não apenas de medicamento.

Dentre as principais práticas de manejo que contribuem para os ovinos conseguirem conviver com a verminose estão a nutrição, a criação consorciada com bovinos adultos ou equinos, a integração lavoura-pecuária, a seleção de animais resistentes e o descarte de animais sensíveis. Estes e outros pontos foram aprofundados em outros guias sobre verminose.

Cabe agora ao produtor o entendimento de que o vermífugo é uma ferramenta indispensável para tratar seus animais, mas que deve ser usada com cautela e amparada por um conjunto de manejos que permita que o rebanho conviva com a verminose sem apresentar problemas clínicos ou perdas produtivas.

Erros comuns e pontos de atenção

  • Confiar apenas no vermífugo: tratar a verminose como um problema que se resolve apenas com o uso de vermífugos, sem apoio de manejo, nutrição, pastagem, descarte e seleção genética, é abrir mão justamente do que sustenta a convivência com a verminose.
  • Tratar todos os animais em intervalos fixos: repetir a lógica supressiva por hábito, sem avaliar se há necessidade real, é o caminho para acelerar a seleção de parasitos resistentes e a redução da eficácia dos princípios ativos.
  • Não avaliar os momentos que pedem vermifugação estratégica: ignorar janelas de risco real, como pré-parto ou desmame, tende a deixar o rebanho exposto nos períodos de maior desafio parasitário.

Perguntas frequentes

Com que frequência devo vermifugar meu rebanho?

O rebanho pode ser medicado estrategicamente em momentos de alto desafio e que justifiquem a intervenção, fora isto o modelo mais preconizado aponta que devemos avaliar e tratar os animais com sintomas e que necessitam de intervenção.

Quais os riscos de vermifugar meu rebanho mensalmente?

Tratar o rebanho todo em intervalos curtos e fixos, como mensalmente, é a prática que mais acelera a seleção de parasitos resistentes, elimina a refugia e leva à perda de eficácia dos princípios ativos disponíveis.

Quais momentos se justifica uma vermifugação estratégica?

Momentos como pré-parto, desmame, pré-encarneiramento, aumento da taxa de lotação e aquisição de novos animais tendem a concentrar maior risco parasitário e costumam justificar avaliar uma vermifugação estratégica. Cada propriedade deve avaliar quais desses momentos se aplicam à sua realidade.

O uso seletivo do vermífugo pode ser adotado em qualquer propriedade?

Em princípio sim, mas o método exige avaliação individual frequente e critério consistente, o que demanda rotina de manejo e algum treinamento.

vermifugação estratégica, vermifugação seletiva, vermifugação supressiva, de quanto em quanto tempo vermifugar ovelha, resistência ao vermífugo, quando vermifugar ovinos

Referências

  1. MACEDO, L. O.; SILVA, S. S.; ALVES, L. C.; CARVALHO, G. A.; RAMOS, R. A. N. An overview of anthelmintic resistance in domestic ruminants in Brazil. Ruminants, v. 3, n. 3, p. 214-232, 2023.
  2. MINHO, A. P. Endoparasitoses de ovinos: conhecer para combater. Bagé: Embrapa Pecuária Sul, 2014. (Circular Técnica, 45).
  3. SIMÕES, S. V. D.; RAIMONDO, R. F. S.; RIET CORREA, B. Parasitoses gastrintestinais de pequenos ruminantes: os desafios do controle. Revista Brasileira de Buiatria, v. 2, n. 2, p. 24-77, 2022.
  4. SOUZA, F. P. de. Contribuição para o estudo da resistência de helmintos gastrointestinais de ovinos (Ovis aries) a anti-helmínticos, no estado do Paraná. 1997. Dissertação (Mestrado em Ciências Veterinárias). Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1997.
  5. VAN WYK, J. A.; BATH, G. F. The FAMACHA system for managing haemonchosis in sheep and goats by clinically identifying individual animals for treatment. Veterinary Research, v. 33, n. 5, p. 509-529, 2002.

Temas relacionados

  • Hemoncose
  • Verminoses gastrintestinais
  • FAMACHA
  • Resistência parasitária
  • OPG e coprocultura
Rolar para cima