Hemoncose

A verminose é o principal desafio sanitário da ovinocultura, e entre as verminoses a hemoncose, causada pelo Haemonchus contortus, responde pela maior parte do prejuízo. Algumas características do verme ajudam a entender o tamanho desse desafio, a começar pela alta fecundidade, já que uma única fêmea deposita de 5 a 10 mil ovos por dia, o que contamina a pastagem rapidamente, e esses ovos e larvas ainda resistem meses no campo à espera de um hospedeiro. Suas populações também se tornam resistentes aos anti-helmínticos com mais facilidade, e em boa parte dos rebanhos do Sul do Brasil já sobram poucos produtos capazes de dar conta dele. E, diferente da maioria dos vermes gastrintestinais, ele se alimenta de sangue, causando anemia, perda de desempenho e morte. É a soma desses fatores que faz da hemoncose a maior vilã da ovinocultura a campo.

Um verme que se alimenta de sangue

O sangue é o que leva oxigênio a cada músculo e nutriente a cada tecido, e nenhum animal cresce, engorda, produz lã ou sustenta uma gestação sem ele em quantidade suficiente. É desse sangue que se alimenta o Haemonchus contortus, verme que vive no abomaso, o estômago verdadeiro que o produtor conhece como coalheira, e que perfura a mucosa com uma lanceta minúscula alojada na cápsula bucal para alcançar os vasos. Essa hematofagia começa antes mesmo da fase adulta, já nas larvas em desenvolvimento (MONTEIRO, 2017; SIMÕES et al., 2022).

O consumo de cada verme é relativamente baixo, e o desafio está na soma, porque dificilmente se trata de poucos parasitos e a espoliação é contínua. A perda ocorre por duas vias, a lesão que o aparelho bucal provoca na mucosa do abomaso e o sangue que o parasito de fato ingere. Cada exemplar retira entre 0,05 e 0,08 mL por dia, número que ganha impacto quando multiplicado pela carga, e um ovino com quinhentos parasitos, infecção ainda considerada leve, perde de 25 a 40 mL diariamente (AMARANTE, 2015). Em infecções intensas a perda diária representa uma fração expressiva do sangue circulante, o que é especialmente grave em cordeiros.

O clima, o campo e o tamanho do desafio

Temperatura e umidade são os fatores que determinam a intensidade do desafio para os ovinos a campo. O Haemonchus contortus está presente na pastagem, em forma de ovo ou de larva, nas chamadas fases de vida livre, e é o clima que funciona como acelerador ou freio para ele. O verme prefere calor, com desenvolvimento favorecido acima dos 25 graus (SIMÕES et al., 2022), o que explica por que o verão e o início do outono tendem a concentrar a maioria dos casos. O frio, abaixo dos 9 graus, não elimina o parasito do rebanho, mas interrompe o desenvolvimento das larvas na pastagem (O’CONNOR; WALKDEN-BROWN; KAHN, 2006), de modo que os vermes já instalados seguem o próprio ciclo enquanto no pasto se formam menos larvas infectantes.

Tão importante quanto a temperatura é a umidade, pois o ciclo do parasito depende de água para acontecer. Uma estiagem prolongada trava o desenvolvimento no pasto, e a exposição direta ao sol tende a matar ovos e larvas, sobretudo nas fases iniciais, mais sensíveis à dessecação, o que traz alívio ao rebanho. Essa trégua tem limite, porque o bolo fecal funciona como um microclima protegido, retendo umidade suficiente para o ovo eclodir e a larva se desenvolver mesmo em períodos secos (SIMÕES et al., 2022). A estiagem dificilmente elimina a contaminação, apenas a segura, e quando a chuva volta, principalmente concentrada, boa parte do que estava retido se desenvolve de uma vez. A umidade não precisa vir somente da chuva, já que orvalho, solos com maior retenção e sistemas de irrigação também sustentam o ciclo.

A larva infectante tem uma limitação, ela não se alimenta, vivendo apenas das reservas acumuladas até encontrar um hospedeiro. Tudo que acelera seu metabolismo consome essa reserva mais depressa, e é por isso que a sobrevivência em condições quentes é menor do que em clima temperado. A oscilação térmica também a prejudica, e num experimento que comparou duas condições as larvas de Haemonchus contortus submetidas a variação diária de temperatura perderam a viabilidade em duas semanas, enquanto as mantidas sob frio constante se conservaram por mais de dois meses (O’CONNOR; WALKDEN-BROWN; KAHN, 2006). O que encurtou a vida delas não foi o frio, já que a temperatura estável e baixa as preservou, e sim a alternância.

O acompanhamento do clima ao longo do ano pode ser um aliado do produtor, mas como a variação entre regiões é grande, cada local precisa avaliar a sua realidade. Em Uruguaiana, na fronteira oeste gaúcha, o INMET registrou no período de 1991 a 2020 máximas médias acima dos 25 graus entre outubro e abril. Nesse ambiente, em função do frio, os meses de maio, junho, julho e agosto tendem a reduzir a pressão da hemoncose, enquanto nos demais o risco aumenta, com setembro na transição. Vale notar que os meses de maior risco são justamente os que trazem a letra R na grafia, coincidência que ajuda a memorizar, e que a primavera costuma pegar o produtor desprevenido. Convém insistir que isso aponta quando redobrar a vigilância, e não quando tratar.

A literatura aponta que as larvas infectantes se concentram nos primeiros centímetros da forragem, e daí vem a orientação de evitar que os animais pastejem rente ao solo, como forma de reduzir a ingestão de larvas (SIMÕES et al., 2022). Em gramínea tropical, no entanto, esse padrão nem sempre se repete, e num trabalho conduzido no Rio Grande do Sul com capim aruana, sob predominância de Haemonchus, as larvas apareceram distribuídas por toda a altura da forragem, sem se concentrarem na base (TONTINI et al., 2015). Achados semelhantes em outras espécies tropicais levaram o mesmo grupo a concluir que o controle de altura de pasto tem ação limitada nesse tipo de pastagem (POLI et al., 2020).

A explicação está na umidade, porque a larva não sobe sozinha, ela depende de um filme contínuo de água para migrar do bolo fecal até a folha, de modo que a movimentação é baixa na ausêe orvalho, chuva ou irrigação (SIMÕES et al., 2022; O’CONNOR; WALKDEN-BROWN; KAHN, 2006). Por isso a arquitetura da planta pesa mais do que a altura dela, e num mesmo piquete dividido entre gramínea e leguminosa a porção de leguminosa concentrou uma quantidade bem maior de larvas, condizente com o perfil da planta, que retém mais umidade e sombreia o solo (TONTINI et al., 2019).

A doença no animal

O organismo do animal reage à hemoncose em duas frentes, procurando conter o parasito pela resposta imune e repondo o sangue que está sendo consumido. Na maior parte dos animais essas reações dão conta, e a infecção se mantém num nível que não produz sinais clínicos, o que explica por que, ao avaliar um rebanho inteiro, só uma parcela costuma aparecer anêmica. A doença se instala quando essas reações não são suficientes, o que depende da velocidade da perda, do tempo que ela dura e da capacidade de resposta daquele animal (SIMÕES et al., 2022; AMARANTE, 2015).

Como o verme consome sangue, o sinal que caracteriza a hemoncose é a anemia, que visualizamos pela palidez das mucosas, principalmente na conjuntiva do olho. Junto dela costuma aparecer o edema submandibular, a popular papeira, resultado da perda de proteína junto com o sangue. Outros achados menos específicos acompanham o quadro, como apatia, respiração e batimentos acelerados e queda de desempenho (AITKEN, 2007). A diarreia não é sinal típico da hemoncose, e quando aparece costuma ter outra causa, que precisa ser investigada.

A doença se apresenta de três formas, conforme a velocidade com que a carga parasitária se instala. Na hiperaguda, resultado da ingestão maciça de larvas em pouco tempo, a perda de sangue é tão rápida que o animal pode morrer antes de qualquer sinal de alerta, às vezes ainda em boa condição corporal, e essa é a apresentação mais temida justamente por não dar tempo de reação (SIMÕES et al., 2022). Na aguda o quadro se instala ao longo de semanas, com palidez progressiva, seguida de papeira e perda de peso. Já a crônica decorre de uma exposição mais gradual, em que o animal consegue compensar por tempo prolongado, ainda que às custas do desempenho, e o quadro se confunde com simples baixo rendimento, com o animal emagrecendo devagar e podendo chegar à caquexia (AITKEN, 2007). A cronicidade debilita o animal de tal modo que qualquer outro desafio se torna desproporcional, seja uma queda na qualidade da dieta ou outra doença associada.

A hemoncose é um desafio para todos os animais do rebanho, mas duas categorias merecem atenção redobrada, o cordeiro recém-desmamado e a ovelha no periparto (FORBES, 2021). No cordeiro pesam quatro fatores simultâneos, a começar pelo volume de sangue, já que o parasito consome a mesma quantidade independentemente do tamanho do hospedeiro, de modo que, quanto menor o animal, maior o peso relativo de cada parasito. Somam-se a isso a mudança de dieta com a perda do leite materno, a fase de crescimento acelerado, em que qualquer instabilidade se reflete no desempenho, e a imunidade, que se constrói lentamente a partir de exposições sucessivas e só costuma se manifestar de forma madura por volta dos 6 a 9 meses de idade (RUAS; BERNE, 2001). Na ovelha a situação é outra, porque mesmo com a imunidade desenvolvida o periparto traz uma fragilização temporária, assunto retomado na prevenção.

Como se identifica a hemoncose no campo

Como o verme se alimenta de sangue, o efeito que ele produz é a anemia, que se manifesta na palidez das mucosas, visível principalmente na parte interna da pálpebra. Medir essa anemia com precisão exige um exame chamado hematócrito, que informa a proporção de células vermelhas no sangue, mas ele depende de coleta individual e laboratório, o que inviabiliza seu uso na rotina de um rebanho. A hemoncose é tão predominante entre as verminoses que foi possível unir as duas pontas, associando faixas de coloração da mucosa a intervalos de hematócrito, e essa associação é a base do método FAMACHA, que permite estimar a anemia e a necessidade de tratamento em poucos segundos, apenas observando a mucosa do olho (VAN WYK; BATH, 2002). O método exige a confirmação de que o Haemonchus é de fato o gênero dominante no rebanho, já que atua apenas sobre ele, o que se faz por coprocultura (MOLENTO, 2004).

A ferramenta se apoia num cartão oficial impresso com cinco graus de coloração, do vermelho intenso ao branco, e a leitura consiste em comparar a conjuntiva ocular do animal com esses padrões. Nos graus 1 e 2 o animal não apresenta anemia e não precisa de tratamento, no grau 3 a vermifugação já é indicada e a decisão se apoia em outros critérios, como escore de condição corporal e histórico do lote, e nos graus 4 e 5 o tratamento é imprescindível (CHAGAS; OLIVEIRA; CARVALHO, 2007). Quando parte considerável do rebanho aparece nos graus mais pálidos, a leitura aponta que a pressão da pastagem está alta, o que exige atenção redobrada e revisão do manejo.

Há um ponto em que divergimos do protocolo, que orienta iniciar o exame em cordeiros jovens. Na nossa experiência o cordeiro piora rápido demais para que a avaliação periódica o proteja, podendo passar de saudável a gravemente anêmico no intervalo entre dois exames, o que faz dessa categoria um caso de planejamento sanitário próprio. A aplicação do método, com frequência de avaliação, treinamento e cuidados com o cartão, é detalhada em tema próprio.

O exame de fezes, com a contagem de ovos por grama, é outra via de diagnóstico, dimensionando a carga do rebanho naquele momento, enquanto a coprocultura identifica quais gêneros estão presentes, ambos tratados em tema próprio. Vale uma ressalva, porque em campos de alto desafio, principalmente em animais recém-tratados, um OPG baixo pode esconder uma carga alta de parasitos recém-ingeridos, que ainda não estão pondo ovos, e nessa situação são os sinais clínicos que orientam a decisão.

Como a palidez pode ter causas diversas, é sempre importante avaliar diagnósticos diferenciais. Já na necropsia o diagnóstico é direto, porque o Haemonchus contortus adulto é visível a olho nu no abomaso, avermelhado pelo sangue ingerido, aspecto que rendeu ao verme o apelido de vermelhinho da coalheira.

Como se trata a hemoncose

O tratamento da hemoncose se faz com anti-helmínticos, e a decisão que importa não é qual produto usar, é qual produto ainda funciona na propriedade. Cada aplicação deixa vivos os parasitos que já carregavam a capacidade de resistir àquela molécula, e são eles que se reproduzem. Como cada fêmea põe milhares de ovos por dia (5 a 10 mil) e as gerações se sucedem em poucas semanas, essa fatia resistente cresce rápido, e a eficácia do produto vai caindo com o uso repetido.

Quem responde qual produto está funcionando é o teste de eficácia, que compara a contagem de ovos (OPG) antes e depois de um tratamento. O ideal é repeti-lo uma vez por ano, com intervalo máximo de dois anos. A escolha do vermífugo, a estratégia de uso e a decisão de trocar devem vir do resultado desse teste, e vale o alerta de que trocar de marca não é trocar de princípio ativo, já que muitos produtos com nomes diferentes trazem a mesma molécula.

Evitar o uso frequente do anti-helmíntico é justamente o que sustenta o método FAMACHA, tratado na seção anterior. Ao medicar apenas quem precisa, o produtor gasta menos com vermífugo e, mais importante, submete uma parcela menor da população de vermes à pressão de seleção, o que prolonga a vida útil das moléculas. E há um ganho extra, que beneficia todo o sistema, já que o acompanhamento ao longo do tempo revela quais animais são mais sensíveis à hemoncose, aqueles que precisam ser medicados com frequência, e eles são candidatos naturais ao descarte, assunto retomado na prevenção.

O vermífugo é indispensável para tratar um animal com hemoncose, porque é ele que mata os vermes e interrompe a perda de sangue. O que muda conforme a apresentação da doença é o que precisa acompanhá-lo. Nos quadros agudos e hiperagudos o essencial é eliminar o parasito e oferecer suporte básico, com água de qualidade e melhora da oferta nutricional. Já no quadro crônico a debilitação é mais profunda, e o animal pode precisar de atenções extras, que reponham micronutrientes e macronutrientes, sempre a critério do veterinário.

Nas anemias mais severas é possível que nem o vermífugo nem o suporte alimentar sejam suficientes, porque o problema imediato deixa de ser o verme e passa a ser a falta de volume sanguíneo. A reposição da volemia, por fluidoterapia ou transfusão, deve ser considerada, e também é decisão clínica do veterinário responsável (PUGH et al., 2021). Como um ovino com pouco sangue pode não suportar esforço físico intenso, e como o quadro evolui rápido, todo manejo do lote deve considerar a possibilidade de haver animais anêmicos, sendo feito com calma e nos horários mais amenos do dia.

Como se previne a hemoncose

Três frentes sustentam a prevenção da hemoncose, e elas podem, e devem, andar juntas. A primeira é a nutrição, que dá ao animal condição de suportar e responder ao contato que vai acontecer de qualquer forma. A segunda é o descarte dos animais com baixa capacidade de suportar esse contato. A terceira é reduzir o contato entre o ovino e a larva no campo, a frente com mais alternativas disponíveis. As três partem de uma premissa, a de que não é possível eliminar a hemoncose, e sim conviver com ela num nível em que não haja perda produtiva ou econômica.

A nutrição é a ferramenta mais consistente contra a hemoncose, e a lógica é direta, animal mal alimentado responde pior ao desafio e animal bem alimentado responde melhor. Entre as razões está o custo que o parasito impõe, como reparar o tecido lesionado e sustentar a resposta imune, que desviam para isso os nutrientes que iriam para o crescimento e a produção (AMARANTE, 2015). Isso vale para todo o rebanho, mas pesa ainda mais em categorias que estão com exigência elevada, o cordeiro e a ovelha no periparto.

Um estudo mostra na prática o tamanho dessa diferença. Em cordeiras recém-desmamadas, em campo nativo no Rio Grande do Sul, a proporção que precisou de medicação em virtude de anemia grave causada por hemoncose foi de 58% sem suplementação e apenas 10% quando a suplementação foi de 18% de proteína bruta (BENAVIDES; GENRO; SOUZA, 2020).

O descarte orientado consiste em tirar do rebanho os animais sensíveis à hemoncose, aqueles que adoecem com mais frequência que os demais, estando todos sob o mesmo desafio. Uma das formas mais práticas de encontrá-los é o método FAMACHA, marcando cada animal medicado, assim o acúmulo dessas marcações ao longo do tempo revela quem deve sair do rebanho. A remoção dos animais sensíveis promove ganho genético no rebanho, ainda que gradual, já que se trata de característica de herdabilidade moderada (MEDRADO; PEDROSA; PINTO, 2021).

Reduzir o contato entre o ovino e a larva reúne alternativas de naturezas bem diferentes, algumas ainda pouco utilizadas e outras que dependem de condições que nem sempre existem na prática. Entram aqui o manejo da pastagem, a integração com a lavoura, o pastejo consorciado, o cuidado nas categorias e nos momentos de maior risco, a retirada dos animais que mais contaminam o campo e o conceito de refugia, que orienta o quanto tratar.

A rotação de pastagem consiste em movimentar os animais entre áreas, promovendo o descanso do campo, na expectativa de que a forragem se recupere e de que as larvas ali presentes morram antes que os animais retornem. Embora amplamente citada, é uma medida que entrega menos do jeito que costuma ser praticada, já que os produtores usualmente rotacionam o campo entre 21 e 40 dias, enquanto a viabilidade das larvas apenas começa a diminuir a partir dos 31 dias, e o descanso que de fato cumpriria esse objetivo pode precisar ir de cerca de 182 dias, quando a contaminação ocorreu no verão, a 350 dias quando ocorreu no inverno, realidade não aplicável a campo (POLI et al., 2020).

Rotacionar a área permite que a pastagem se recupere, oferecendo aos animais alimento de melhor qualidade, que por via nutricional contribui para o combate da verminose (AMARANTE, 2015). Porém a expectativa de que breves intervalos quebrem o ciclo do parasito não se confirma, e existe ainda um risco oculto, já que a rotação permite aumentar a lotação, e o animal com menos área acaba pastejando mais perto das fezes, coisa que naturalmente evitaria (POLI et al., 2020). Como resumem Selaive e Osório (2017), o descanso de um piquete visa atender à forrageira, não ao controle parasitário.

Na integração lavoura-pecuária, a área fica sem ovinos por algo entre quatro e seis meses, somando o ciclo da cultura ao restabelecimento da forragem. Tempo suficiente para uma redução significativa de ovos e larvas, que nenhum esquema de rotação alcançaria (SIMÕES et al., 2022; SELAIVE; OSÓRIO, 2017).

O consórcio com outras espécies consiste em pastejo simultâneo ou alternado com equinos ou bovinos adultos. Essa ferramenta funciona pela especificidade parasitária, já que boa parte das larvas de ovinos acaba não conseguindo completar o ciclo nessas espécies. O pastejo alternado tem apresentado resultados mais eficientes (SOTOMAIOR, 2009), contudo no simultâneo a lotação de uma única espécie acaba sendo diluída, dificultando o encontro do verme com o ovino.

Os manejos estratégicos consistem em agir antes dos momentos em que o desafio aumenta, e três se destacam. O periparto, quando a imunidade da ovelha se fragiliza temporariamente e ela passa a eliminar mais ovos, elevando a contaminação do campo (RUAS; BERNE, 2001). O pós-desmame, quando o cordeiro, sem imunidade madura, fica mais sensível à hemoncose (SIMÕES et al., 2022). E as viradas climáticas, quando a chuva depois de períodos secos tende a liberar de uma vez grande quantidade de larvas. A resposta a esses momentos está num tripé, o uso estratégico do anti-helmíntico, a melhora nutricional e a escolha de qual área do campo vai receber cada categoria.

O descarte volta a ser tema, agora por motivo diferente. Havíamos falado da necessidade de retirar o animal que adoece, e agora o foco é naquele que mais contamina o campo. Uma parcela do rebanho tende a ser tolerante à hemoncose, carregando muitos vermes sem necessariamente adoecer. Como esses animais dificilmente chegam aos graus mais pálidos, o acompanhamento pelo FAMACHA não os aponta para descarte, e eles seguem no rebanho aumentando a contaminação do campo. Para essa categoria a identificação é via OPG, a contagem de ovos por grama de fezes, e bastam três coletas entre o desmame e a estação de monta para apontar os mais parasitados, cuja retirada reduz o OPG médio do rebanho (BENAVIDES et al., 2025). É uma alternativa de peso especial na escolha dos carneiros, pelo número de descendentes que deixam.

Por fim, a refugia, que é a parcela da população de vermes não exposta ao anti-helmíntico e que por isso segue sensível a ele. Ela está nos vermes dos animais que não foram tratados e nos ovos e larvas da pastagem, e é ela que dilui os resistentes nas gerações seguintes, fazendo com que a eficácia dos produtos dure mais. Daí a recomendação de deixar de 10 a 20% dos animais sem tratamento (SELAIVE; OSÓRIO, 2017), coisa que o método FAMACHA já faz naturalmente ao tratar apenas quem precisa.

Há ainda frentes voltadas especificamente ao Haemonchus que ainda dependem de maiores avanços e consolidações para se tornarem recomendação. A vacina, licenciada na Austrália desde 2014, tem eficácia parcial, exige múltiplas doses e não tem registro comercial no Brasil (ABBOTT, 2024). Os fungos nematófagos, que capturam as larvas no bolo fecal, esbarram em alguns desafios do ambiente e numa exigência de fornecimento controlado. E a seleção por marcadores moleculares segue incipiente. São caminhos reais, tratados no tema Verminoses gastrintestinais, mas nenhum deles substitui hoje o que já está disponível.

Erros comuns e pontos de atenção

  • Achar que hemoncose causa diarreia. Como o Haemonchus contortus é hematófago, o sinal clínico característico é a anemia, sem alteração no aspecto das fezes.
  • Confiar no descanso curto do potreiro. Os descansos praticados, entre 21 e 40 dias, tendem a ficar muito abaixo do necessário para reduzir a contaminação da pastagem.
  • Achar que as larvas ficam apenas nos primeiros centímetros da planta. A depender da espécie forrageira, elas podem estar distribuídas por toda a altura da forragem, já que a migração depende da umidade e da arquitetura da planta.
  • Tratar o lote e mudar de piquete em seguida. Parece o manejo mais correto, mas é o que extermina a refugia, porque os únicos vermes a colonizar a área nova serão os que sobreviveram ao tratamento, ou seja, os resistentes.
  • Trocar a marca do vermífugo achando que trocou o princípio ativo. Muitos produtos com nomes comerciais diferentes trazem a mesma molécula, e a decisão de trocar deve vir do resultado do teste de eficácia.
  • Julgar o animal pela condição corporal. Em ambientes com alto desafio e na forma hiperaguda o ovino pode estar com alta carga parasitária e correndo risco, mesmo em bom estado corporal.
  • Conduzir o lote com pressa em período de alto desafio. Um animal anêmico pode não suportar esforço físico intenso, e a movimentação deve ser calma e nos horários mais amenos do dia.

Perguntas frequentes

Hemoncose é sinônimo de verminose em ovinos?

Existem vários vermes na ovinocultura, mas devido ao alto impacto, prevalência e desafios impostos à atividade, quando falamos em verminose em ovinos comumente estamos nos referindo ao Haemonchus contortus, causador da hemoncose.

Por que a hemoncose aparece mais no verão no Sul do Brasil?

Porque o desenvolvimento das larvas na pastagem depende de calor e umidade, condições típicas do verão e do início do outono. Havendo condições, é possível termos hemoncose o ano inteiro.

Um cordeiro pode morrer sem sinal prévio de hemoncose?

Sim, na forma hiperaguda, resultado da ingestão maciça de larvas em pouco tempo. A perda de sangue é tão rápida que o animal pode morrer ainda em boa condição corporal, o que torna o acompanhamento dos animais indispensável.

Por que os cordeiros adoecem mais que os adultos?

Pesam quatro fatores ao mesmo tempo, o volume menor de sangue, já que o parasito consome a mesma quantidade independentemente do tamanho do animal, o estresse e a mudança de dieta no desmame, a fase de crescimento acelerado e a imunidade, que só costuma se manifestar por volta dos 6 a 9 meses.

Rotacionar o potreiro resolve a hemoncose?

Os descansos praticados em manejos rotacionados, de 21 a 40 dias, em geral ficam abaixo do necessário para que a viabilidade das larvas comece a diminuir. Em alguns casos, conforme a época do ano, o descanso necessário pode ser superior a 180 dias. Contudo a rotação segue valendo como ferramenta de produção de forragem, e é por via nutricional que ela contribui no controle.

Preciso vermifugar o rebanho inteiro?

Em alguns casos pode haver necessidade, mas esta é uma prática que deve ser evitada ao máximo, pois acelera a resistência. Manter de 10 a 20% dos animais sem tratamento preserva a refugia, a parcela da população de vermes ainda sensível ao produto, que dilui os resistentes nas gerações seguintes. O método FAMACHA faz isso naturalmente, ao medicar apenas quem precisa.

Como sei se o vermífugo ainda funciona na minha propriedade?

Pelo teste de eficácia, que compara a contagem de ovos antes e depois do tratamento. O ideal é repeti-lo uma vez por ano, com intervalo máximo de dois anos, e vale lembrar que trocar de marca não é trocar de princípio ativo.

Suplementar ajuda a controlar a hemoncose?

Ajuda, e é a ferramenta de efeito mais consistente. Em cordeiras recém-desmamadas em campo nativo no Rio Grande do Sul, a necessidade de medicação por anemia grave caiu de 58% sem suplementação para 10% com suplemento de 18% de proteína bruta.

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Referências

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Material consultado

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  • STORILLO, V. M. Resistência genética a helmintos gastrintestinais em ovinos: parâmetros hematológicos e metabólicos. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, 2016.

Temas relacionados

  • Verminoses gastrintestinais
  • OPG e coprocultura
  • Vermifugação estratégica, seletiva e supressiva
  • Resistência parasitária
  • FAMACHA
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