Hipotermia e inanição em cordeiros

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O frio isolado dificilmente irá matar um cordeiro nascido forte e bem alimentado, pois o que derruba a taxa de sobrevivência na parição de inverno não é o frio em si, mas a falta de reserva corporal. A perda pelo frio tende a ser consequência de manejos errados, em especial o peso baixo ao nascer, nutrição materna deficiente, ovelha com lã excessiva dificultando a mamada e falha em ingerir colostro nas primeiras horas de vida. Frio, vento e chuva funcionam como o gatilho que expõe esse déficit e acelera a perda.

No Rio Grande do Sul, esse é historicamente um dos principais gargalos da produção ovina extensiva. Um levantamento de campo da Embrapa Pecuária Sul em Bagé situou a perda de cordeiros logo após o parto entre 15% e 40%, atribuída principalmente ao complexo de inanição e exposição (Souza; Moraes; Jaume, 2006). É uma faixa ampla, mas o padrão de perdas expressivas nas primeiras horas de vida se repete em sistemas extensivos, o que reforça que o problema é estrutural.

Por que a causa é a reserva energética, não o frio em si

Ao nascer o cordeiro conta com uma quantidade de energia limitada para sustentar a temperatura corporal até conseguir mamar o suficiente e manter a própria termogênese. Essa energia provém do glicogênio (muscular e hepático) e da gordura marrom, um tecido adiposo especializado que se acumula principalmente ao redor do coração e dos rins durante o final da gestação. No primeiro dia de vida, a queima dessa gordura pode responder por até metade do calor produzido pelo animal (McCoard; Knol; Stevens, 2020).

Um cordeiro com reservas energéticas adequadas atravessa uma noite fria sem maiores problemas, mas um cordeiro que já nasce com pouca gordura marrom, por nutrição materna deficiente, chega ao mesmo desafio sem margem, e, caso tenha nascido pequeno, tende a perder calor proporcionalmente mais rápido.

Enquanto as reservas duram, ele resiste ao frio mesmo sem mamar, mas quando se esgotam antes de consumir o colostro, a queda de temperatura se acelera e ele perde força para seguir a mãe. Tratar a morte como consequência do frio inverte essa lógica, já que a causa de fundo costuma ser a reserva energética insuficiente, e o ambiente é apenas o gatilho que a expõe.

Uma exceção pontual é quando o frio extremo é combinado a vento e chuva muito intensos. Nesse caso, a queda de temperatura pode ser rápida o bastante para matar o cordeiro antes que ele termine de metabolizar a gordura marrom, mesmo com reservas normais. Essa é a chamada hipotermia primária, tratada como incomum diante do padrão mais frequente, a hipotermia secundária, que é ligada à reserva insuficiente e à falha de colostro (Sargison, 2008).

Fatores maternos e fetais que definem o risco

O peso ao nascer é o indicador mais consistente de sobrevivência, e a relação não é linear, pois tanto o cordeiro muito leve quanto o muito pesado têm risco elevado, havendo o menor risco em torno de um peso moderado que varia conforme a raça e o padrão morfológico da ovelha (Jacobson et al., 2024). O alvo do manejo pré-parto, como já indica a experiência de campo, não é engordar a ovelha, mas acertar a nutrição para que o cordeiro nasça no peso adequado, o que, pensando especificamente em hipotermia, significa não nascer com menos de 3,5 kg.

Outros fatores do lado materno e fetal que pesam no risco:

  • Nutrição da ovelha no terço final da gestação: é quando o feto ganha a maior parte do peso e quando se forma a maior parte da gordura marrom que o cordeiro vai usar nas primeiras horas de vida, de modo que a restrição nesse período compromete as duas coisas ao mesmo tempo.
  • Partos múltiplos: gêmeos e trigêmeos nascem mais leves e dividem a mesma capacidade de produção de colostro da mãe, o que aumenta o risco tanto de inanição quanto de hipotermia em cada cordeiro individualmente.
  • Ovelhas de primeira cria: tendem a ter comportamento materno menos consistente, o que atrasa o estabelecimento do vínculo entre a mãe e a cria e a primeira mamada.
  • Distocia (parto difícil): o estresse do parto prolongado pode comprometer a busca pelo teto e a capacidade de mamar.

O papel do vento, da chuva e da lã da mãe

Frio seco e parado é mais tolerável para um cordeiro recém-nascido do que frio combinado com vento e chuva. É a mesma lógica de sair do banho e ficar exposto ao vento, o corpo molhado perde calor mais rápido do que o corpo seco, porque a água evaporando da pele rouba calor, e o vento carrega esse calor para longe mais depressa. Um acompanhamento de campo da Embrapa Pecuária Sul mostrou isso na prática, onde a chuva se mostrou mais associada à mortalidade de cordeiros do que a sensação térmica isolada (Souza; Moraes; Benavides, 2007).

A lã excessiva na ovelha entra nessa equação por dois caminhos distintos, primeiro por atrapalhar fisicamente o cordeiro a localizar o teto e mamar, e em segundo lugar por tornar a ovelha mais tolerante ao frio, reduzindo o estímulo para buscar abrigo na hora do parto. A tosquia no final da gestação, pré-parto, atua em ambos os casos, facilitando o acesso ao teto e induzindo a fêmea a buscar abrigo (Jacobson et al., 2024).

Abrigo no local de parição

Um local de parição com alguma proteção contra vento e chuva reduz a mortalidade, e essa proteção não precisa ser sofisticada, podendo inclusive ser natural, como um capão de mato ou renque de árvores que quebre o vento predominante, ou construída, indo de algo simples como fardos de palha, chapas ou lona posicionados na direção do vento até estruturas mais permanentes como um galpão.

Algumas categorias podem necessitar estrutura e atenção especial na parição, principalmente as borregas de primeira cria e as ovelhas com gestação múltipla. Ovelhas parindo pela primeira vez costumam ter comportamento materno menos consistente, o que justifica trabalhá-las à parte, numa área ou potreiro específico, sempre que possível. Fêmeas com gestação múltipla também merecem atenção extra, já que os cordeiros tendem a nascer menores ou com vigor reduzido, e a própria ovelha tem exigência nutricional maior, o que justifica priorizá-la no manejo pré e pós-parto.

Uma alternativa que exige mais investimento e intervenção é a construção de parideiras, em boxes individuais ou coletivos, que reduz o peso da adversidade climática sobre o cordeiro e tende a refletir em melhor taxa de sobrevivência. Mas essa alternativa precisa ser avaliada por outros ângulos, como o aumento de custo com mão de obra, alimentação e estrutura. Parideiras também exigem atenção redobrada com sanidade e limpeza constante, já que o confinamento aumenta a exposição a alguns desafios, como coccidiose. Outro ponto controverso é o possível efeito desse ambiente sobre a habilidade materna, o cuidado humano mais próximo pode mascarar ovelhas com comportamento materno fraco e dificultar a seleção e o descarte por esse critério.

Colostro

Colostro é o primeiro leite produzido pela ovelha logo após o parto, com composição própria, rico em anticorpos e concentrado em energia. O cordeiro precisa mamar o colostro o quanto antes, para que ele possa agir antes que as reservas de gordura marrom se esgotem. É o colostro que fornece a energia para sustentar a temperatura corporal nas primeiras horas de vida, além da imunidade que protege o recém-nascido até que o próprio sistema imunológico amadureça.

A capacidade do cordeiro de aproveitar os benefícios do colostro cai rápido depois do nascimento, por isso quanto antes ele mamar, melhor. Estima-se que, por volta de 12 horas de vida, a capacidade de absorção de anticorpos já esteja reduzida pela metade, encerrando-se quase por completo em 24 horas. Os pontos-chave no colostro não são apenas quantidade e qualidade, é também que o cordeiro mame o quanto antes.

Uma prática recomendada para reduzir perdas é manter um banco de colostro congelado na propriedade, formado com o excedente de ovelhas que pariram um só cordeiro ou daquelas que perderam a cria, guardado em porções pequenas. Na hora de usar o colostro deve ser descongelado com o cuidado de não ultrapassar a temperatura de 56°C (Souza; Moraes; Benavides, 2007).

A identificação precoce de cordeiros hipotérmicos, feita antes que o cordeiro chegue ao estado que popularmente chamamos de encarangado (fraco, cabeça baixa, incapaz de seguir a mãe), tende a ser mais eficaz do que qualquer intervenção realizada depois que esse quadro já se instalou (Souza; Moraes; Benavides, 2007).

Reconhecendo e agindo diante do cordeiro hipotérmico

A temperatura retal é o parâmetro mais confiável para classificar a gravidade do quadro de hipotermia e orientar a conduta:

  • Normal (39°C a 40°C): cordeiro mamando normalmente, sem sinais de hipotermia.
  • Hipotermia leve a moderada (37°C a 39°C): ainda sustenta a cabeça e segue a mãe, costuma se recuperar com secagem, ingestão de colostro, retorno à ovelha e supervisão próxima.
  • Hipotermia severa (abaixo de 37°C): deve receber glicose antes de ser aquecido.

Um cordeiro em hipotermia severa (abaixo de 37°C) já consumiu a reserva de glicogênio que vinha sustentando sua temperatura corporal, e é justamente essa reserva esgotada que torna a reposição de glicose necessária antes do aquecimento. Glicose é o açúcar que circula no sangue, o combustível imediato para o cérebro e os músculos, mantido pela quebra do glicogênio armazenado no fígado e na musculatura.

Aquecer o cordeiro acelera seu metabolismo cerebral, aumentando a demanda de energia do cérebro. Se a reserva de energia já estiver esgotada, essa demanda extra não é suprida, e o cérebro fica sem o combustível que precisa para funcionar, o que pode levar a convulsão, coma e morte. Por isso a glicose deve ser administrada antes de aquecer o cordeiro com hipotermia severa.

Esse risco é associado pela literatura a cordeiros com mais de cinco horas de vida, tempo suficiente para esgotar as reservas energéticas. Como no campo raramente se sabe a hora exata do nascimento, na prática não dá pra saber com certeza se um cordeiro com hipotermia severa já está com a glicemia baixa (Sargison, 2008; Souza; Moraes; Benavides, 2007).

A referência mais usada é solução de glicose a 20%, levemente morna, aplicada por via intraperitoneal, na dose aproximada de 10 ml por quilo de peso vivo (Sargison, 2008). É uma técnica que exige treinamento, a aplicação incorreta pode ferir órgãos internos do cordeiro, por isso cabe ao médico veterinário orientar ou realizar o procedimento na propriedade. Uma estrutura mínima para quem assiste a parição costuma incluir:

  • Termômetro clínico
  • Seringas
  • Solução de glicose injetável
  • Sonda esofágica ou gástrica adaptada
  • Colostro armazenado
  • Fonte de calor para aquecimento gradual

Erros comuns e pontos de atenção

  • Chamar a morte de hipotermia e parar a investigação por aí: na maior parte dos casos a hipotermia é a manifestação final de um déficit que começou antes, na nutrição da mãe, no peso ao nascer ou na falha de colostro. Tratar o frio como causa isolada esconde o problema real.
  • Não revisar o rebanho com frequência suficiente na parição: cordeiro atendido antes de ficar encarangado tem chance de recuperação bem maior do que aquele identificado depois que o quadro já se instalou. Duas revisões diárias, manhã e tarde, costumam ser o mínimo recomendado.
  • Deixar de fazer a tosquia pré-parto: quando bem-feita, essa prática favorece o ganho de peso da ovelha e do cordeiro, facilita a mamada do colostro e tende a induzir a ovelha a buscar abrigo, contribuindo para a taxa de sobrevivência.
  • Ignorar o potreiro de parição: escolher onde a ovelha vai parir é uma decisão tão relevante quanto a nutrição pré-parto, e não exige necessariamente investimento em infraestrutura.

Perguntas frequentes

Qual a temperatura retal normal de um cordeiro recém-nascido?

Cordeiros saudáveis, mamando normalmente, costumam apresentar temperatura retal entre 39°C e 40°C. Valores entre 37°C e 39°C indicam hipotermia leve a moderada, e abaixo de 37°C caracterizam hipotermia severa, que exige intervenção mais cuidadosa.

Frio sozinho mata cordeiro recém-nascido?

Praticamente nunca sozinho, pois o frio é apenas o gatilho, e não a causa de fundo, sendo a reserva energética insuficiente para superar o frio o que realmente mata o animal. A exceção é o frio extremo combinado a vento e chuva muito intensos (hipotermia primária), um quadro que é bem menos comum do que a hipotermia por falta de reservas corporais.

Tosquia pré-parto realmente ajuda a evitar hipotermia nos cordeiros?

Ajuda por mais de um caminho, pois reduz a interferência da lã na hora de o cordeiro localizar o teto e mamar, além de tornar a ovelha mais propensa a buscar abrigo por conta própria na hora do parto, já que ela fica menos tolerante ao frio.

Como identificar um cordeiro em risco de hipotermia antes que ele fique encarangado?

O cordeiro que não está mamando, que parece pequeno em relação aos demais ou que não segue a mãe com o vigor normal demonstra os primeiros sinais, o que torna a revisão do rebanho pelo menos duas vezes ao dia durante a parição a forma mais eficaz de identificar esses casos a tempo.

É preciso investir em galpão ou parideira para reduzir a mortalidade por hipotermia?

Não necessariamente, visto que a escolha de um potreiro próximo e protegido do vento por vegetação ou relevo já reduz a exposição de forma relevante.

Cordeiro gêmeo tem mais risco de hipotermia que cordeiro único?

Sim, pois os cordeiros de partos múltiplos nascem, em média, mais leves, dividem a produção de colostro da mãe e parecem responder de forma mais acentuada às medidas de proteção contra o frio, como o fornecimento de abrigo no local de parição.

Referências

  1. JACOBSON, C.; CLUNE, T.; BESIER, S.; BARBER, S.; ABBOTT, K. A. Reproduction 3: disorders of ewes in pregnancy and lactation, abortion, prenatal and perinatal diseases of lambs. In: ABBOTT, K. A. (ed.). Sheep Veterinary Practice. Boca Raton: CRC Press, 2024. p. 157-185.
  2. McCOARD, S. A.; KNOL, F. W.; STEVENS, D. R. Lamb Rearing Technical Manual. Palmerston North: AgResearch, 2020.
  3. SARGISON, N. Sheep Flock Health: A Planned Approach. Oxford: Blackwell Publishing, 2008.
  4. SOUZA, C. J. H. de; MORAES, J. C. F.; BENAVIDES, M. V. Cuidados com cordeiros hipotérmicos. Bagé: Embrapa Pecuária Sul, 2007. (Circular Técnica, 33).
  5. SOUZA, C. J. H. de; MORAES, J. C. F.; JAUME, C. M. Cuidados com as ovelhas durante a parição e com os cordeiros recém-nascidos. Bagé: Embrapa Pecuária Sul, 2006. (Comunicado Técnico, 59).

Material consultado

  1. RAMOS, Z.; MONTOSSI, F. Alternativas tecnológicas para aumentar la supervivencia de corderos: “control integrado de parición en ovinos”. Revista INIA, n. 38, p. 11-15, set. 2014.

Temas relacionados

  • Colostro e colostragem
  • Escore de condição corporal (ECC)
  • Tosquia pré-parto
  • Instalações e cercas para ovinos
  • Manejo pré-parto
  • Necropsia e diagnóstico post-mortem em ovinos
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