Ciclo estral

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O ciclo estral é o intervalo entre dois cios, quando a ovelha está em atividade reprodutiva regular. É o ponto de partida de todo o manejo reprodutivo, porque sem entender esse ritmo não há como acertar o momento da monta, da inseminação ou o diagnóstico de uma fêmea vazia.

No Sul do Brasil, esse conhecimento tem peso extra, pois as raças lanadas predominantes no bioma pampa tendem a ser estacionais, concentrando a atividade reprodutiva em parte do ano e ficando em repouso reprodutivo (anestro) no restante. Entender o ciclo estral é a base para trabalhar a favor dessa fisiologia.

O que é o ciclo estral

O ciclo estral é a sequência de eventos hormonais e comportamentais que se repete na fêmea em atividade reprodutiva, entre demonstrações de cio, enquanto não há prenhez, sendo que na ovelha esse intervalo dura em torno de 17 dias, com variação normal de 15 a 19 dias (Neves; Fernandes, 2017).

Aqui entra uma distinção que confunde na prática e vale fixar: ciclo estral, estro e ovulação não são a mesma coisa. O ciclo estral é o intervalo inteiro entre dois cios (com média de 17 dias de duração), enquanto o estro, ou cio, é a janela curta dentro desse intervalo em que a fêmea aceita a monta, durando cerca de um dia, e a ovulação é a liberação do óvulo pelo ovário, um evento pontual que acontece perto do fim do cio. Em resumo, estar em cio e ter ovulado são coisas próximas no tempo, mas não idênticas, e essa diferença tem consequência direta no momento de cobrir ou inseminar.

A ovelha é uma espécie poliéstrica estacional de dias curtos, concentrando a atividade reprodutiva no período em que os dias encurtam, comandada pelo fotoperíodo. Como consequência, ela tende a não ciclar o ano inteiro, embora a intensidade dessa estacionalidade varie conforme a raça, o manejo e, principalmente, a posição geográfica da criação. Quanto mais próxima da linha do equador, menos marcada ela tende a ser, permitindo que fêmeas de regiões equatoriais possam ciclar o ano todo (Neves; Fernandes, 2017).

As duas fases: folicular e luteal

O ciclo estral é comandado pela conversa hormonal entre o cérebro e o ovário (o eixo hipotálamo-hipófise-ovário) e se divide em duas grandes fases, cada uma dominada por um hormônio.

Logo após a ovulação começa a fase luteal, a mais longa do ciclo. O folículo que acabou de ovular, a bolsa que abrigava o óvulo, se transforma. As células que antes produziam estradiol se reorganizam e formam o corpo lúteo, uma estrutura que passa a secretar progesterona, o hormônio que sustenta uma eventual gestação e, enquanto se mantém alto, impede novas ovulações. Tomando a ovulação como dia zero, o corpo lúteo leva de 3 a 4 dias para se formar e atinge o tamanho máximo por volta do dia 9 ou 10 do ciclo (Tibary; El Allali, 2026).

É também durante a fase luteal que a FSH (hormônio folículo-estimulante) recruta novos folículos em ondas sucessivas, três a quatro por ciclo na ovelha. Em cada onda um folículo cresce e se destaca como dominante, mas, sob a progesterona alta que segura a ovulação, esses folículos acabam regredindo antes de ovular (Tibary; El Allali, 2026).

A fase folicular começa quando, na ausência de prenhez, o útero libera prostaglandina (PGF2α) e o corpo lúteo regride, entre os dias 14 e 17 do ciclo (Tibary; El Allali, 2026). Com a queda da progesterona, o freio é retirado, e o folículo dominante da última onda, em vez de regredir, amadurece e passa a produzir estradiol, o estrógeno responsável por preparar a fêmea para o cio. Quando o estradiol atinge o pico, o cérebro responde com uma descarga de LH (hormônio luteinizante), e é esse pico de LH que dispara a ovulação.

Com a ovulação, um novo corpo lúteo se forma e a fase luteal recomeça. É essa alternância, corpo lúteo e progesterona de um lado, folículo dominante e estradiol do outro, que mantém o relógio dos 17 dias girando enquanto a fêmea não emprenha.

O estro (cio): como se manifesta e quanto dura

O sinal mais marcante e confiável do estro é a aceitação da fêmea em ser montada, ficando imóvel diante do macho. Além disso, o cio da ovelha ainda pode ser acompanhado, com maior ou menor intensidade, por outras características como paredes vaginais congestas, úmidas e brilhantes, vulva inchada e avermelhada, inquietação, queda no apetite e o hábito de flexionar a cabeça para trás quando o macho se aproxima da região genital (Neves; Fernandes, 2017).

O cio tem uma duração média ao redor de 30 a 36 horas, com variação importante entre categorias, sendo que as borregas tendem a ter cios mais curtos, enquanto em raças ou indivíduos de maior prolificidade o cio tende a durar mais (ASI, 2002; Tibary; El Allali, 2026).

Diferentemente da vaca, a ovelha em cio não tem o hábito de montar outras fêmeas, o que torna a detecção visual pouco confiável sem a presença de um rufião (Neves; Fernandes, 2017). É por isso que boa parte dos programas reprodutivos recomenda o uso de carneiros com buçal marcador ou rufiões para identificar as fêmeas em cio.

A ovulação: momento e variação

A ovulação acontece cerca de 20 a 40 horas após o início do cio, disparada pelo pico de LH, o que significa que entrar no cio e ovular não são a mesma coisa, nem acontecem juntos (Tibary; El Allali, 2026). Como a ovulação ainda leva algumas horas para ocorrer depois que a ovelha começa a aceitar a monta, o momento de cobrir ou inseminar, contado a partir do início do cio, pesa muito para a fertilidade. Isso ocorre porque o óvulo tem vida curta depois de liberado e os espermatozoides ainda precisam de um tempo de preparo no trato da fêmea, de modo que o ideal é que já estejam prontos e aguardando quando a ovulação acontece.

Esse intervalo não é fixo, variando entre categorias e raças, sendo que a própria taxa de ovulação (número de óvulos liberados) tende a ser maior no pico da estação reprodutiva, motivo pelo qual cobrir no auge da estação favorece não só a concepção como a chance de partos múltiplos (Tibary; El Allali, 2026).

Idade ao primeiro cio

A puberdade, definida como o início da atividade cíclica e da primeira ovulação, ocorre na maioria das ovelhas entre 6 e 10 meses de idade, podendo se antecipar ou se estender conforme o ritmo de crescimento da fêmea, num intervalo que pode ir de cerca de 5 a 15 meses (Neves; Fernandes, 2017; Tibary; El Allali, 2026). Essa variação existe porque a puberdade é uma característica multifatorial, influenciada por raça, nutrição, época de nascimento e exposição ao macho (Tibary; El Allali, 2026). O principal fator desencadeante, porém, é o peso, determinado sobretudo pela nutrição, de modo que a fêmea tende a atingir a puberdade ao alcançar entre 40% e 70% do peso adulto da raça (Neves; Fernandes, 2017; Tibary; El Allali, 2026).

Porém, manifestar cio não é o mesmo que estar apta a reproduzir, embora uma borrega possa ovular assim que atinge o piso de peso da puberdade (40% a 70% do peso adulto da raça), cobrir uma fêmea com baixo peso pode comprometer o crescimento dela e a gestação, que passa a competir por energia com o desenvolvimento corporal (Tibary; El Allali, 2026). Por isso, a primeira cobertura deve mirar um peso adequado, em torno de 80% a 90% do peso adulto, com nutrição que permita à fêmea terminar o desenvolvimento e sustentar a gestação ao mesmo tempo.

Por outro lado, não há uma idade máxima fixa em que a ovelha deixa de ciclar, pois, enquanto saudável e dentro da estação reprodutiva, a fêmea segue ovulando, ainda que com resultado produtivo final inferior nas idades mais avançadas (ASI, 2002).

Erros comuns e pontos de atenção

  • Confundir cio com ovulação: tratar o início do cio como o momento da ovulação leva a cobrir ou inseminar cedo demais. A ovulação vem cerca de 20 a 40 horas depois do início do estro.
  • Confiar na detecção visual sem macho: como a ovelha não monta outras fêmeas, esperar identificar o cio a olho, sem rufião ou carneiro marcador, pode resultar em cios perdidos.
  • Cobrir a borrega pela idade, não pelo peso: colocar a borrega em reprodução só porque completou determinada idade, sem checar se atingiu o peso mínimo adequado à primeira cobertura, tende a comprometer o desenvolvimento tanto da fêmea quanto da gestação.

Perguntas frequentes

De quanto em quanto tempo a ovelha entra no cio?

Dentro da estação reprodutiva, a ovelha entra em cio a cada 17 dias em média, com variação normal de 15 a 19 dias. Esse é o tamanho do ciclo estral. Se a fêmea não emprenhar, ela repete o cio nesse intervalo enquanto durar a estação.

Como saber se a ovelha está em cio?

O sinal mais confiável é a fêmea aceitar a monta do macho. Outros sinais são: paredes vaginais congestas, úmidas e brilhantes, vulva inchada e avermelhada, inquietação e queda no apetite. Como a ovelha não monta outras fêmeas, a detecção segura depende da presença de um carneiro ou rufião.

Com que idade a ovelha entra no cio pela primeira vez?

Em geral entre 6 e 10 meses, mas o peso conta mais do que a idade. A puberdade costuma chegar quando a fêmea atinge de 40% a 70% do peso adulto da raça. Vale um alerta, atingir esse peso e entrar no cio não quer dizer que a fêmea já esteja pronta para reproduzir, o ideal é que ela tenha 80% a 90% do peso vivo adulto para ser coberta.

Existe idade mínima para reproduzir?

A idade mínima na prática é a puberdade, mas cobrir cedo demais, antes de a borrega atingir o peso adequado, tende a prejudicar tanto a gestação quanto o desenvolvimento da fêmea.

Referências

  1. AMERICAN SHEEP INDUSTRY ASSOCIATION (ASI). Reproduction. In: Sheep Production Handbook. Edição 2002. Centennial: ASI, 2002. p. 901-940.
  2. NEVES, J. P.; FERNANDES, G. O. Avaliação reprodutiva da ovelha. In: SELAIVE-VILLARROEL, A. B.; OSÓRIO, J. C. S. (Ed.). Produção de ovinos no Brasil. São Paulo: Roca, 2017. cap. 17, p. 328-343.
  3. TIBARY, A.; EL ALLALI, K. Physiology of reproduction in the female. In: Small Ruminant Theriogenology. 1. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2026. cap. 8, p. 101-119.

Temas relacionados

  • Fotoperíodo e sazonalidade reprodutiva
  • Estação de monta
  • Efeito macho
  • Sincronização de estro e ovulação
  • Puberdade em ovinos
  • Anestro pós-parto
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