Fotoperíodo e sazonalidade reprodutiva

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A ovelha nem sempre cicla o ano todo, este é um comportamento que varia com a raça e a região de criação. Entender o mecanismo por trás dele muda a forma de planejar a reprodução, o calendário de partos e até o momento de vender a produção. A sazonalidade não precisa ser encarada como uma limitação, ela pode ser uma variável usada a favor ou manejada para ser superada, dependendo do objetivo do produtor.

A sazonalidade da ovelha

Ovinos são animais poliéstricos estacionais de dias curtos. Sua atividade reprodutiva cíclica é desencadeada pela variação negativa (diminuição) do comprimento do dia, fenômeno que tende a ocorrer do verão ao outono (EMBRAPA, 2014). Alguns autores defendem a teoria de que este comportamento reprodutivo foi parte da estratégia de sobrevivência da espécie. Ao se reproduzirem no outono, as crias nascem na primavera, quando as condições de temperatura e disponibilidade alimentar são mais favoráveis.

O mecanismo começa na retina, que capta e converte o estímulo luminoso em sinalização neural. Como mediadora, a glândula pineal traduz esse sinal secretando melatonina, cujo padrão de liberação dita a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal e a consequente secreção de hormônios sexuais. Não é a luz em si que induz a reprodução, e sim a duração da escuridão que sinaliza a estação do ano (Silva et al., 2018).

Latitude, raça e o Brasil

Dentre os fatores que impactam a intensidade da sazonalidade está o posicionamento geográfico, em especial a latitude. Quanto mais distante da linha do Equador, maior a variação na duração dos dias entre o verão e o inverno e, por consequência, mais marcado tende a ser o comportamento sazonal dos ovinos. O sentido oposto também é verdadeiro, pois quanto mais próximo à linha do Equador, menor a variação de luminosidade entre as estações do ano e, consequentemente, a intensidade da sazonalidade diminui ou até não se apresenta.

No Brasil, isso cria um quadro bastante heterogêneo:

  • No Sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul e no bioma pampa, as raças lanadas predominantes (Corriedale, Ideal, Merino) têm sazonalidade marcada. A estação reprodutiva natural se concentra do verão ao fim do outono, com maior incidência de estros no outono.
  • No Nordeste e nas regiões próximas à linha do Equador, a variação do comprimento do dia é pequena ao longo do ano. Raças nativas dessas regiões (Santa Inês e Morada Nova) praticamente não apresentam sazonalidade reprodutiva e tendem a manifestar cio durante o ano todo.

Convém lembrar que o fotoperíodo não age sozinho, pois a reprodução é uma função biológica de “luxo”. Outros fatores também regulam as funções reprodutivas, entre eles a disponibilidade alimentar (PIRES et al., 2011). Matrizes com baixo Escore de Condição Corporal (ECC) ou que estejam perdendo peso podem entrar em anestro nutricional, pois o organismo prioriza a própria sobrevivência em vez da reprodução, o que reforça a importância do acompanhamento nutricional.

Sazonalidade, intervalo entre partos e calendário comercial

A sazonalidade não existe de forma isolada, ela interage com a gestação (cerca de 146 dias, ou 5 meses) e com o pós-parto, tornando o restabelecimento do cio um processo multifatorial, e essa interação impacta no intervalo entre partos possível em cada sistema.

Além da estação do ano e da luminosidade, o retorno ao cio pode ser temporariamente bloqueado por eventos fisiológicos diretos e indiretos que sucedem o parto. Em especial, três fatores tendem a atuar como inibidores neuroendócrinos: o puerpério, a lactação e o vínculo materno-filial. O puerpério impõe um anestro necessário para garantir a completa involução e a limpeza uterina, a lactação requer alta demanda energética da produção de leite, podendo suprimir a atividade ovariana. Simultaneamente, a simples presença sensorial da cria (cordeiro), por meio do contato visual, olfativo e auditivo, tende a inibir o ciclo estral.

Em sistemas convencionais com monta anual de outono, o intervalo entre partos fica em torno de 12 meses. Sistemas acelerados, que buscam reduzir esse intervalo para 8 meses (3 partos em 2 anos) ou menos, exigem manejar tanto o anestro fisiológico do puerpério quanto o lactacional e o estacional, e dependem de raças com menor sazonalidade ou do uso ativo de estratégias reprodutivas.

Como a maior parte dos rebanhos de uma mesma região se reproduz sob o mesmo fotoperíodo, a oferta de cordeiros no mercado apresenta uma concentração nos mesmos períodos do ano, resultando em um padrão de oferta no mercado. Esse padrão é, ao mesmo tempo, um problema de organização para a indústria, que precisa dimensionar a capacidade de abate e escoamento para picos sazonais, e pode ser uma oportunidade para o produtor que consegue produzir fora da janela de maior oferta.

O posicionamento comercial pode ser parte do planejamento reprodutivo. Em monta concentrada no outono, com parições na primavera, posiciona os cordeiros para abate entre dezembro e março, quando a oferta é alta.

Uma estação de monta antecipada, com parições em janelas distintas do habitual, posiciona o cordeiro para abate em período de menor oferta, quando os preços costumam ser mais atraentes. Contudo, é preciso avaliar quais manejos e estratégias precisam ser superados para efetuar tal programação reprodutiva.

No entanto, a decisão não pode ser apenas comercial, é preciso que a época escolhida coincida com uma boa oferta alimentar tanto para a fêmea gestante quanto para o período de lactação e crescimento do cordeiro, além dos ajustes operacionais e cuidados necessários na parição.

Estratégias para manejar a sazonalidade

Quando o objetivo é produzir fora da estação natural, existem diferentes ferramentas, usadas isoladamente ou combinadas. Aqui elas são apenas apresentadas, cada uma será aprofundada em tema específico dentro do guia.

  • Manejo de luz artificial: o tratamento consiste em submeter os animais a dias artificialmente longos (16 horas de luz por dia, com intensidade mínima de 200 lux no nível dos olhos, durante 60 dias consecutivos). Após a retirada da fonte de luz artificial, o organismo interpreta a transição de luminosidade, e o cio aparece cerca de 60 dias depois (EMBRAPA, 2014). É uma técnica que não envolve hormônios, mas é custosa e demanda tempo, pois exige que os animais fiquem em ambiente fechado durante o tratamento. Boa parte dos estudos que sustentam esses parâmetros foi conduzida com caprinos, e a literatura especificamente ovina sobre o tema ainda é escassa.
  • Implantes de melatonina: dispositivos subcutâneos de liberação lenta de melatonina simulam o sinal de noite longa e induzem a retomada da atividade reprodutiva mesmo em período de anestro estacional, tanto em fêmeas quanto em carneiros, nos quais também melhoram a qualidade do sêmen fora de época (Abecia et al., 2024). Contudo, no Brasil não temos disponibilidade comercial do produto.
  • Efeito macho: a introdução de um reprodutor após período de aproximadamente 60 dias de separação total (visual, olfativa e auditiva) estimula o eixo neuroendócrino das fêmeas e tende a estimular o início da ciclicidade, em especial na transição para a estação reprodutiva.
  • Indutores farmacológicos: protocolos à base de progestágenos, gonadotrofinas (eCG) e prostaglandinas induzem e sincronizam o estro fora da estação, e são a base da maioria dos programas de inseminação artificial em tempo fixo em ovinos.

Erros comuns

  • Decisão de monta só pelo calendário comercial: buscar a janela de melhor preço sem considerar se há oferta alimentar suficiente para a fêmea gestante, para a lactação e para o crescimento do cordeiro, e sem prever os ajustes operacionais necessários na parição, é planejar só metade da conta.
  • Atribuir todo atraso no retorno ao cio ao fotoperíodo: ignorar o Escore de Condição Corporal (ECC) como causa de anestro nutricional leva a diagnósticos errados, já que uma fêmea magra pode não estar ciclando por reserva corporal insuficiente, não por estar fora da estação.
  • Tratar o anestro pós-parto como bloco único: puerpério, lactação e vínculo materno-filial são fatores distintos que se somam ao anestro estacional. Não separá-los dificulta saber onde agir para reduzir o intervalo entre partos.

Perguntas frequentes

Por que algumas raças de ovelha têm sazonalidade marcada e outras não?

A intensidade da sazonalidade depende da latitude em que a raça foi selecionada ao longo do tempo. Raças formadas em regiões de grande variação de luz entre as estações tendem a manter o comportamento sazonal mais marcado. Raças formadas perto da linha do Equador, onde a luz varia pouco ao longo do ano, tendem a ciclar o ano todo.

É melhor apostar na monta na estação natural ou tentar produzir na entressafra?

Depende do sistema produtivo. A monta na estação natural aproveita o fotoperíodo sem manejo adicional, mas concentra a oferta, e os preços, no mesmo período que o restante do rebanho regional. Produzir fora da estação pode valorizar o cordeiro, mas exige manejo extra para superar o anestro estacional. A decisão passa pela estrutura disponível, não só pelo preço.

Só o fotoperíodo explica por que a ovelha não volta a ciclar depois do parto?

Não. O retorno ao cio depende também do puerpério, da lactação e do vínculo sensorial com o cordeiro, fatores que se somam ao anestro estacional e podem alongar o intervalo entre partos além do que a sazonalidade sozinha explicaria.

Referências

  1. ABECIA, J. A.; CHEMINEAU, P.; DELGADILLO, J. A. Advances in photoperiodic and bio-stimulations of seasonal reproduction in small ruminants. Small Ruminant Research, v. 235, 2024. DOI: 10.1016/j.smallrumres.2024.107286.
  2. EMBRAPA. Biotecnologias aplicadas à reprodução de ovinos e caprinos. Brasília: Embrapa, 2014.
  3. PIRES, B. C.; VIU, M. A. O.; LOPES, D. T.; PAULA, E. J. H.; CRUZ, M. M.; VIU, A. F. M. Métodos para elevar o ritmo reprodutivo dos ovinos. PUBVET, v. 5, n. 11, 2011.
  4. SILVA, A. A. F.; GOIS, G. C.; PESSOA, R. M. S.; CAMPOS, F. S.; LIMA, C. A. B. Efeito do fotoperíodo sobre ruminantes. Nutritime Revista Eletrônica, v. 15, n. 3, p. 8164-8171, maio/jun. 2018.

Temas relacionados

  • Ciclo estral
  • Estação de monta
  • Efeito macho
  • Sincronização de estro e ovulação
  • IATF em ovinos
  • Intervalo entre partos
  • Puberdade em ovinos
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