epididimite ovina, epididimite em carneiro, Brucella ovis, exame andrológico
Introdução
A campo, os termos “epididimite” e “brucelose ovina” são frequentemente usados como sinônimos que, apesar da forte relação entre os dois, guardam uma diferença técnica importante para o manejo correto.
A epididimite é a lesão em si, a inflamação do epidídimo (estrutura acoplada ao testículo onde os espermatozoides amadurecem e ficam armazenados). Ela pode ter diversas causas. Já a brucelose ovina é a doença causada pela bactéria Brucella ovis. No Rio Grande do Sul, ela é a principal responsável pela epididimite em carneiros e a que causa o maior impacto reprodutivo e econômico.
Essa é uma enfermidade endêmica (de presença constante) no Estado há décadas, com o primeiro levantamento sorológico realizado em 1966 (Riet-Correa et al., 2001). Mesmo com a criação do Programa Estadual de Sanidade dos Ovinos (PROESO) em 2014, focado na prevenção e erradicação, levantamentos mais recentes continuam apontando alta prevalência da doença, especialmente em propriedades na Fronteira Oeste (Mattos, 2023). É um alerta claro de que esse problema exige muito mais atenção.
O grande desafio da brucelose ovina é que ela age de forma silenciosa. Os prejuízos aparecem em detalhes nem sempre óbvios:
- Ovelhas que não emprenham;
- Repetição de cio;
- Estação de monta prolongada;
- Perdas gestacionais que passam despercebidas;
- Nascimento de cordeiros inviáveis.
Enquanto isso, o carneiro infectado continua cobrindo o rebanho normalmente, não demonstra desconforto, não perde peso e mantém a libido intacta. E aqui mora um dos equívocos mais perigosos, a conclusão rápida de que, se não há aumento de volume no testículo (epididimite), o animal está sadio.
Como veremos a seguir, a realidade é bem diferente, e entender como a lesão acontece é o primeiro passo para proteger o rebanho.
O epidídimo e a lesão
O epidídimo é um canal longo que envolve o testículo (Figura 1). É nele que os espermatozoides completam sua maturação e ficam armazenados até a ejaculação. Sem um epidídimo funcionando adequadamente, não há qualidade seminal.
Quando a Brucella ovis infecta o animal, ela penetra pela mucosa, atinge os gânglios e, pela corrente sanguínea, chega ao epidídimo. Nesse local, a bactéria destrói os ductos, provocando o extravasamento de espermatozoides para o tecido ao redor (formando os chamados granulomas espermáticos). Com o tempo, esse quadro leva à degeneração e à atrofia do testículo. Uma vez que o epidídimo inflama, o processo é progressivo e, em geral, irreversível (Abbott, 2024). O grande perigo é que a qualidade seminal diminui, mas a libido do carneiro continua intacta.
É importante ressaltar que a Brucella ovis é a principal causa, mas não a única. Bactérias como Actinobacillus seminis e Histophilus somni podem provocar lesões muito semelhantes (Tibary e El Allali, 2026). Por isso, a diferenciação depende exclusivamente de exames laboratoriais, e a suspeita de brucelose deve estar presente independentemente do histórico do animal.

Figura 1
A doença: Brucella ovis
Diferentemente de outras bactérias gram-negativas do gênero, a Brucella ovis não infecta humanos, ou seja, não é uma zoonose (Tibary e El Allali, 2026). Isso evita confusões com a brucelose bovina, mas não diminui a gravidade para o rebanho ovino.
Essa bactéria possui uma propriedade que a torna muito difícil de combater, a resistência à destruição intrafagocitária (Riet-Correa et al., 2001). Em termos simples:
- A bactéria usa as próprias células de defesa do carneiro como “esconderijo”.
- Protegida no interior dessas células, os antibióticos não conseguem atingi-la em concentração suficiente.
Isso explica por que o tratamento não é uma opção viável na produção. A infecção tende a causar inflamação crônica, fibrose e calcificação (um processo sem volta). O carneiro se torna um reservatório ativo, eliminando a bactéria no sêmen (e eventualmente na urina) e transmitindo a infecção por toda a estação de monta.
Como a doença circula no rebanho
A principal via de transmissão é a sexual (venérea), mas o contágio acontece em diversas situações de manejo:
- Durante a estação de monta: a ovelha no cio aceita a monta de mais de um macho. Se for coberta por um carneiro infectado, ela atua como uma “ponte” e o próximo reprodutor saudável que a cobrir acabará se infectando.
- Fora da estação de monta: o contato direto entre machos é crítico. A transmissão ocorre por comportamentos de dominância, sodomia e pela lambedura do prepúcio entre os animais (Abbott, 2024).
- O papel do rufião: machos vasectomizados também se infectam e transmitem a doença pelo sêmen (Riet-Correa et al., 2001). Pelo contato intenso com as fêmeas, o rufião é um vetor silencioso e frequentemente subestimado.
- Inseminação artificial: a técnica, por si só, não blinda o rebanho se o reprodutor não for previamente testado.
Um reprodutor positivo contamina dezenas de fêmeas, que expõem outros machos. O ciclo se perpetua enquanto animais positivos conviverem com negativos, com o risco agravado ao misturar machos jovens e adultos.
O que acontece com o rebanho
Os prejuízos são acumulativos: ovelhas vazias, ovelhas cobertas que não seguram prenhezes, estação prolongada e descarte forçado de reprodutores.
Nos machos, a degeneração testicular derruba a fertilidade, mesmo naqueles que não apresentam sintomas de epididimite (inflamação do epidídimo). Um estudo ilustra essa queda na proporção de espermatozoides normais (Riet-Correa et al., 2001):
- Carneiros negativos (sadios): 91% normais.
- Carneiros positivos (sem lesão visível): 70% normais.
- Carneiros positivos (com sinais clínicos): apenas 50% normais.
Nas fêmeas, a infecção causa repetições de cio, abortos esporádicos, nascimento de cordeiros fracos e elevada mortalidade perinatal (Tibary e El Allali, 2026). Como esses sinais têm diversas outras causas, basear o diagnóstico apenas na observação das fêmeas é extremamente difícil.
O que examinar e o que não concluir
O exame andrológico (avaliação clínica geral e de todos os aspectos relacionados a reprodução como: genitália, capacidade de monta e sêmen) é indispensável antes da temporada reprodutiva, e deve sempre incluir a testagem para brucelose. Da parte do produtor, a rotina de observação e a palpação do escroto são passos simples e essenciais.
Quando presente, o sinal clínico mais claro é o aumento de volume e endurecimento do epidídimo (geralmente na cauda), podendo haver atrofia do testículo. Nos casos unilaterais, a diferença de tamanho entre os lados facilita a identificação.
Porém, aqui reside o maior erro de diagnóstico a campo, achar que palpação sem alteração é atestado de saúde. De 30% a 50% dos animais positivos não desenvolvem alterações clínicas visíveis no escroto, especialmente no início da infecção.
O diagnóstico definitivo exige exame clínico, avaliação do sêmen e sorologia (como o ELISA adotado no RS), sendo responsabilidade exclusiva do médico veterinário (Tibary e El Allali, 2026; Mattos, 2023). Todo esse conjunto é obrigatório para comercializar carneiros no Estado (Selaive-Villarroel; Osório, 2017).
E a fêmea? Por que o exame foca no macho
Se a fêmea também adoece, por que o protocolo sanitário é tão rigoroso com o carneiro e não com a ovelha? A explicação está no comportamento da bactéria.
Enquanto nos machos a Brucella ovis coloniza o epidídimo, nas fêmeas ela tem preferência pelo útero gravídico, atraída por substâncias da placenta e fluidos fetais (Freitas, 2023). Apesar de fetos abortados e secreções representarem risco de transmissão (havendo inclusive registro de eliminação pelo leite, Freitas, 2023), a ovelha não apresenta um sinal clínico palpável como o macho. Além disso, ela pontualmente transmite a bactéria, mas não sustenta sozinha o ciclo da doença na propriedade (Tibary e El Allali, 2026; Freitas, 2023).
Essa diferença de peso na transmissão explica por que a exigência oficial de exames recai sobre o reprodutor.
Diagnóstico e PROESO
Instituído no Rio Grande do Sul em 2014, o PROESO foca na prevenção, controle e erradicação de algumas enfermidades, entre elas a brucelose ovina (chamada pelo programa de epididimite).
A regra básica do programa, simples e válida para toda e qualquer propriedade, exige que qualquer carneiro comercializado ou movimentado para fins reprodutivos apresente, obrigatoriamente, sorologia negativa para Brucella ovis. Exigir esse teste na compra não é um preciosismo, é a barreira sanitária mínima.
Para os criadores que desejam ir além, especialmente aqueles que vendem reprodutores, a PROESO oferece também a certificação voluntária de “Propriedade Livre de Epididimite Ovina”. É um selo oficial que tende a agregar valor de mercado e atesta um controle sanitário, para quem decidir avançar nesse nível de manejo.
No papel, as ferramentas de controle são excelentes, mas, na prática, a prevalência da doença não cede no Estado porque a exigência de testagem é frequentemente contornada, seja pelo empréstimo informal de reprodutores entre vizinhos, seja pela emissão de Guias de Trânsito Animal (GTAs) para outras finalidades, mascarando a movimentação real.
Controle: o que funciona
A lição principal é dura, não há tratamento e, no Brasil, não há vacina autorizada. A estratégia se resume a fechar as portas para a doença e eliminar quem está doente.
Para garantir a sanidade, o manejo deve seguir este passo a passo:
- Testar antes de comprar: nenhum carneiro entra sem sorologia negativa, exceto de propriedades certificadas como livre pela PROESO.
- Exame andrológico anual: antes de cada estação de monta, teste e avalie todos os machos.
- Não esquecer os rufiões: eles exigem exatamente o mesmo rigor sanitário dos reprodutores.
- Descarte imediato: animal positivo deve ser encaminhado para o abate sanitário.
- Separação por categorias: sempre que a infraestrutura permitir, afaste machos jovens dos adultos fora da estação, minimizando a transmissão direta.
Erros comuns e pontos de atenção
- Confiar apenas na palpação e/ou achar que um epidídimo sem aumento é por consequência saudável. Mais da metade dos carneiros infectados não tem lesão palpável. Sem sorologia, passam despercebidos e seguem transmitindo.
- Adquirir ou receber reprodutores emprestados sem exigir teste negativo para B. ovis. Essa é a principal porta de entrada da doença, colocando em risco a sanidade de todo o rebanho e o investimento genético. Vale também para rufiões.
- Usar animais da própria propriedade sem testagem prévia. Carneiro que nunca foi testado não é carneiro livre. É carneiro de status sanitário desconhecido.
- Misturar reprodutores de procedências diferentes sem testagem. O contato entre animais de status sanitário desconhecido é o ambiente ideal para a circulação da doença.
- Achar que o carneiro está bem porque está cobrindo. Brucelose não altera a libido nem outros aspectos clínicos gerais. O carneiro infectado seguirá cobrindo e contaminando o rebanho.
- Achar que a fêmea está livre de risco por não ser testada de rotina. A ovelha também pode ser infectada pela B. ovis, quase sempre sem sinais evidentes. Em investigações de surto reprodutivo ou em protocolos de certificação de propriedade livre, testar fêmeas também tem valor.
Perguntas frequentes
Como saber se meu carneiro tem epididimite por brucelose ovina?
O diagnóstico definitivo exige sorologia, realizada por médico veterinário. A palpação, buscando aumento de volume do epidídimo (em especial da cauda), pode ser considerada um indicador de suspeita. Mas vale lembrar que parte dos carneiros infectados não apresenta alteração visível ou tátil, em especial na fase inicial, e que há outras doenças que também podem causar epididimite.
Tem tratamento para a brucelose ovina?
Não existe tratamento. A bactéria sobrevive dentro das células de defesa do organismo, o que impossibilita a eficácia de um possível tratamento. O controle se faz por prevenção e identificação, e o carneiro positivo deve ser destinado para abate sanitário.
Posso comprar carneiro sem fazer o exame sorológico?
No RS, a movimentação de carneiros exige sorologia negativa para B. ovis, com exceção prevista apenas quando a origem já é uma propriedade certificada livre pela PROESO. Fora desse caso pontual, comprar sem testagem é transferir um risco desconhecido para o rebanho. A depender do manejo reprodutivo, um animal positivo pode contaminar todo o rebanho em uma estação de monta.
O carneiro está cobrindo as ovelhas bem e sem inchaço no escroto. Ele pode estar doente?
Sim. O animal não perde a libido e uma parcela dos carneiros infectados não apresenta aumento de volume no epidídimo, em especial na fase inicial da doença. Apenas o exame andrológico com sorologia pode atestar a saúde do reprodutor.
A doença afeta só os machos?
Não. As fêmeas também se infectam por B. ovis, embora sem sinais visíveis, a doença pode causar repetição de cio, abortos esporádicos, cordeiros fracos e mortalidade perinatal elevada. A diferença é que, na fêmea, não existe uma lesão palpável equivalente à epididimite, já que o epidídimo é uma estrutura exclusiva do macho.
Por que só o carneiro é testado, e não as ovelhas?
É o carneiro quem sustenta e propaga o ciclo da doença, eliminando a bactéria no sêmen e cobrindo dezenas de fêmeas por estação.
É possível certificar o rebanho como livre de epididimite?
Sim. Atualmente a PROESO prevê a certificação por meio de protocolos de testagem e monitoramento. Para quem comercializa reprodutores, é um diferencial importante.
A brucelose ovina pode passar para os humanos?
Não. Diferentemente de outras espécies da bactéria (como a que causa a brucelose bovina), a Brucella ovis não infecta humanos, portanto, não é uma zoonose. Seu impacto é estritamente reprodutivo e econômico para o rebanho ovino.
Referências
- ABBOTT, K. A. (Ed.). Sheep Veterinary Practice. Wallingford: CABI, 2024.
- FREITAS, M. A. B. Epididimite em ovinos por Brucella ovis. Revista VIDA: Ciências Exatas e da Terra (VIECIT), v. 1, n. 2, p. 78-92, 2023.
- MATTOS, N. S. C. Epidemiologia da brucelose ovina no Rio Grande do Sul. 2023. 68 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Animal). Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor, Programa de Pós-Graduação em Saúde Animal, Eldorado do Sul, RS, 2023.
- RIET-CORREA, F. et al. (Ed.). Doenças de Ruminantes e Equinos. 2. ed. São Paulo: Varela, 2001. v. 1.
- SELAIVE-VILLARROEL, A. B.; OSÓRIO, J. C. S. (Ed.). Produção de ovinos no Brasil. São Paulo: Roca, 2017.
- TIBARY, A.; EL ALLALI, K. Small ruminant theriogenology. Hoboken: John Wiley & Sons, 2026.
Material consultado
- REBOLLADA-MERINO, A. et al. Immunopathology of early and advanced epididymis lesions caused by Brucella ovis in rams. Veterinary Immunology and Immunopathology, v. 261, art. 110621, 2023.
- RIO GRANDE DO SUL. Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural. Departamento de Defesa Agropecuária. Procedimento Operacional Padrão (POP) para o PROESO. Porto Alegre: SEAPDR, 2022.
- SANTOS, R. L.; ALESSI, A. C. Patologia veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016.
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