Estação de Monta

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Introdução

A estação de monta é uma das decisões de manejo com maior efeito sobre o resto do ano. Concentrar o período em que as ovelhas ficam com o reprodutor, e como consequência os partos numa janela definida, organiza praticamente tudo o que vem antes e depois: a alimentação do pré ao pós-parto, os cuidados da parição, o desmame, a esquila, a comercialização. Quando a propriedade adota estação de monta, passa a operar dentro de um calendário previsível.

No Sul do Brasil, essa decisão tem ainda mais peso porque a fisiologia reprodutiva dos ovinos é fortemente influenciada pelas estações do ano. A ovelha é uma espécie poliéstrica estacional de dias curtos e manifesta cios principalmente quando os dias começam a encurtar.

Decisões específicas (datas, duração, número de carneiros, lotes) devem ser definidas com o técnico da propriedade, considerando o histórico do rebanho, a infraestrutura disponível e a oferta forrageira local.

O que é estação de monta

É o período definido em que as ovelhas aptas para reprodução são colocadas junto com o carneiro para que a reprodução aconteça de forma concentrada. Fora desse período, o macho fica separado das fêmeas.

A alternativa mais comum é o sistema em que os machos ficam permanentemente com as fêmeas. Esse modelo gera partos diluídos, lotes de cordeiros desiguais, manejos repetidos e dificuldade de planejar o ano de produção: cada cordeiro nasce em uma condição diferente, a parição não pode ser acompanhada com a atenção que merece, a alimentação não pode ser ajustada por categoria, a sanidade fica comprometida e o trabalho se espalha sem clareza dos resultados.

A estação de monta, ao concentrar reprodução e parição, permite planejar tudo que orbita esses dois eventos: seleção das matrizes, o flushing (quando necessário), o exame andrológico, a vermifugação estratégica, o diagnóstico de gestação, o acompanhamento do escore de condição corporal (ECC), a alimentação, a esquila pré-parto, os cuidados de parição, o creep feeding (quando necessário), o desmame e a comercialização.

Por que adotar estação de monta

A estação de monta figura entre as principais ferramentas de gestão para elevar o desempenho reprodutivo do rebanho. Os benefícios mais reconhecidos:

  • Partos concentrados numa janela definida: permite planejar mão de obra, infraestrutura e oferta forrageira de acordo com a necessidade nutricional de cada momento produtivo.
  • Lotes de cordeiros homogêneos: pesos próximos no desmame e na terminação, o que facilita e valoriza a comercialização.
  • Manejos coletivos: vacinação, vermifugação, identificação, esquila pré-parto e desmame realizados de uma vez por lote, em vez de divididos ao longo do ano.
  • Decisões reprodutivas baseadas em dados: fica claro quais ovelhas falharam, quais emprenheram tardiamente e quais entregaram cordeiros mais leves, dando sentido à escrituração reprodutiva.
  • Pressão de seleção: ovelhas que repetidamente falham em emprenhar dentro da estação são candidatas a descarte, o que tende a melhorar o rebanho ao longo do tempo.
  • Base para o manejo integrado: sem estação de monta, é difícil planejar com seriedade nutrição, sanidade, mercado e o caixa da propriedade.

A base fisiológica: estacionalidade e o Sul do Brasil

Ovinos são poliéstricos estacionais de dias curtos. A maioria das raças concentra a atividade reprodutiva no período em que os dias estão encurtando, no Sul do Brasil do verão ao outono. A intensidade da estacionalidade varia com a raça, a latitude e o sistema de criação.

O ciclo estral da ovelha tem duração média de 17 dias, com variação entre 15 e 19 dias (Pires et al., 2011). O cio é silencioso e dificulta a detecção. O macho permanece fértil o ano todo, mas sofre variação sazonal de qualidade do sêmen e libido, reforçando a exigência do exame andrológico pré-estação.

No Rio Grande do Sul, a reprodução preferencial ocorre de janeiro a junho, variando com raça e forragem (Moraes, 2009). No bioma pampa, com criação a campo nativo, a reprodução no outono alinha-se com essa fisiologia e com a curva forrageira (Poli; Monteiro; Silveira, 2017). Parições concentradas em setembro e outubro, resultado de uma estação em abril e maio, tendem a coincidir com a entrada da primavera e o crescimento do campo, favorecendo a recuperação das ovelhas e o desenvolvimento dos cordeiros. Fora dessa janela, cobrir ovelhas tende a exigir indução de cio, com custo adicional e resultados mais variáveis.

Partos no outono ou inverno também são possíveis e trazem bons resultados, mas exigem estratégias alimentares que sustentem a demanda, como forrageiras de inverno, melhoramento de campo nativo ou suplementação estratégica.

Como a gestação da ovelha dura cinco meses, é possível planejar mais de uma estação reprodutiva por ano. Existem métodos consolidados que viabilizam três partos em dois anos ou até intervalos menores. A adoção dessa estratégia depende de uma série de fatores estruturais, nutricionais e reprodutivos, que serão abordados em um tema específico chamado intervalo entre partos.

Como planejar uma estação de monta

Não há protocolo universal, mas o planejamento se desenha com base em três decisões interligadas: quando, por quanto tempo e com qual lote. As três devem se ajustar às condições da propriedade.

Quando começar. A definição parte de cima para baixo: primeiro se define quando se quer que os cordeiros nasçam, considerando oferta forrageira, infraestrutura e mão de obra disponível para a parição. A partir da data alvo de parição, calcula-se a estação de monta recuando os cinco meses de gestação.

Por quanto tempo. Para rebanhos que adotam a prática pela primeira vez, recomenda-se um período máximo de 51 dias, o equivalente a três ciclos estrais completos, oferecendo às ovelhas três oportunidades de emprenhar antes de serem consideradas falhadas. Segundo Pires et al. (2011), ao adotar o método por duas estações consecutivas, com descarte sistemático das ovelhas vazias, recomenda-se reduzir o período para 42 dias. Um rebanho que cicla bem e emprenha no primeiro ou segundo cio não precisa de mais tempo.

Com qual lote. A estação de monta é tão eficiente quanto a qualidade das matrizes e dos carneiros selecionados. Alguns critérios práticos para definir:

  • ECC adequado, sendo 3 para fêmeas e 3,5 para os carneiros (escala de 1 a 5)
  • idade e categoria coerentes
  • ausência de problemas sanitários, podais e de conformação
  • preferencialmente com histórico reprodutivo positivo

Preparação dos animais antes da estação

Os 60 a 90 dias que antecedem a estação são tão importantes quanto a estação em si.

  • Separar machos das fêmeas: com antecedência suficiente para garantir que apenas fêmeas vazias entrem na estação. Esse manejo também favorece o efeito macho, que induz e sincroniza cios.
  • Realizar exame andrológico: nos reprodutores com pelo menos 60 dias de antecedência, incluindo avaliação clínica geral e de todos os aspectos relacionados à reprodução. A nutrição dos reprodutores merece atenção 8 a 10 semanas antes, período ligado ao ciclo espermatogênico: déficit nutricional produz sêmen de qualidade inferior (Pires et al., 2011).
  • Avaliar o ECC e ajustar a nutrição: para ovelhas com escore abaixo do ideal, o flushing (aporte nutricional extra nas semanas que antecedem e sucedem a monta) pode elevar a taxa de ovulação e reduzir a mortalidade embrionária (Pires et al., 2011). Em ovelhas com ECC entre 3,0 e 3,5, o efeito tende a ser reduzido ou nulo.
  • Cordeiras ou borregas de primeira cria: precisam, além do ECC, ter atingido peso mínimo entre 70% e 80% do peso adulto médio da raça (SUL, 2018). Abaixo desse peso, o desempenho reprodutivo é comprometido. Sempre que possível, devem ser cobertas separadas das ovelhas adultas.
  • Atualizar o manejo sanitário: vermifugação estratégica, vacinação conforme calendário, casqueamento e controle de ectoparasitos quando necessário.
  • Revisar as instalações usadas no encarneiramento, na gestação e na parição: com antecedência suficiente para eventuais correções.

Razão fêmea-macho e estratégias de monta

A relação entre número de fêmeas e carneiros depende de alguns critérios e da estratégia adotada. Em monta a campo, a referência é de 2% a 4% de carneiros aptos em relação ao número de ovelhas (2 a 4 carneiros para cada 100 fêmeas), variando conforme a época do ano, a raça, o tamanho do potreiro, a condição dos animais e a seleção a que estes animais foram submetidos (SUL, 2018).

Em monta controlada ou inseminação a razão muda. Ferramentas que complementam a estação e serão aprofundadas no guia incluem:

  • Efeito macho: a introdução repentina de carneiros num lote de ovelhas sem contato prévio (visual, olfativo e sonoro) pode induzir, antecipar e concentrar o aparecimento de cios.
  • Pintar o peito dos carneiros: tinta, giz ou coletes marcadores, mudando de cor a cada 14 dias (iniciando por cores mais suaves e avançando para cores mais fortes), permitem identificar quais ovelhas foram cobertas e em quais datas, estimando as datas de parto.
  • Programa de luz: controle artificial do fotoperíodo, mais aplicável a sistemas confinados ou estabulados, com objetivo de induzir cios fora da estação natural.
  • Protocolos hormonais: de sincronização e/ou indução de cio, baseados principalmente em progestágenos. Têm aplicação específica e exigem orientação profissional.
  • Inseminação artificial, IATF e outras biotecnologias: aplicação crescente em rebanhos comerciais e em rebanhos registrados, mas demandam estrutura e suporte profissional.

Calendário do ano construído a partir da estação

A estação de monta organiza o ano inteiro da propriedade. Abaixo um exemplo de calendário baseado em uma estação iniciada em abril:

  • Janeiro: Separar fêmeas e machos
  • Fevereiro: Avaliação andrológica dos carneiros
  • Março: Seleção e ECC das ovelhas (avaliar necessidade de flushing)
  • Abril: Encarneiramento (estação de monta)
  • Maio/junho: Diagnóstico de gestação
  • Julho: Esquila pré-parto
  • Julho/agosto: Manejo pré-parto e vacinação contra clostridiose
  • Agosto/setembro: Cuidados da parição
  • Outubro/novembro: Vacinação dos cordeiros contra clostridiose (2 doses)
  • Dezembro: Desmame
  • Dezembro/janeiro: Avaliação das ovelhas para descarte ou permanência

Cada uma dessas etapas é tema próprio do Guia, mas todas dependem da disciplina de manter uma estação de monta definida. No exemplo usamos abril como referência, e cada produtor deve, junto com seu técnico, ajustar seu calendário de acordo com a realidade da sua propriedade.

Após a estação: diagnóstico e descarte

Encerrado o período reprodutivo, a identificação das ovelhas prenhes e das falhadas é o próximo passo. Um rufião com giz ou tinta, de cor diferente da utilizada na estação (normalmente se usa a cor preta), pode ser colocado junto às fêmeas. Ovelhas marcadas pelo rufião nesse período não estão prenhes (Moraes, 2009).

A ultrassonografia, quando disponível, é o método mais preciso para confirmação da prenhez e, principalmente, para identificação de ovelhas com gêmeos, informação importante para o manejo nutricional da gestação e da parição.

O descarte das ovelhas que ficam vazias a cada estação é parte importante do processo para melhorar o rebanho e potencializar os benefícios do efeito de seleção que a estação de monta oferece.

Erros comuns e pontos de atenção

  • Decidir a data sem olhar a oferta forrageira: o pico de necessidade nutricional coincide com o terço final de prenhez, a parição e a lactação, e esses momentos precisam estar alinhados com a oferta de pasto.
  • Decidir a data sem considerar a disponibilidade de mão de obra: atividades simultâneas na propriedade podem deixar momentos importantes sem a atenção adequada.
  • Manter o carneiro com as ovelhas o ano todo e ainda assim chamar de estação: sem separação efetiva dos machos fora do período, não há estação.
  • Negligenciar o escore de condição corporal: ovelhas em escore baixo respondem pior à monta, têm maior mortalidade embrionária e maiores perdas neonatais.
  • Não fazer exame andrológico antes da estação: carneiro com qualidade seminal comprometida, subfértil ou com problema para desempenhar sua função pode comprometer a estação inteira. O exame é investimento, não custo.
  • Encurtar a estação sem preparo: exige rebanho com fertilidade alinhada, e encurtar prematuramente pode resultar em baixa taxa de prenhez.
  • Não acompanhar a estação com diagnóstico de gestação: perde-se a oportunidade de identificar ovelhas vazias cedo, ajustar o manejo nutricional por categoria e descartar matrizes improdutivas sem esperar pelos partos.
  • Não controlar o andamento das coberturas: uma falha silenciosa só aparece meses depois, seja no diagnóstico de gestação ou, pior, na parição.

Perguntas frequentes

Por que adotar estação de monta em vez de deixar o carneiro o ano todo?

A estação de monta concentra os partos numa janela definida, o que permite planejar nutrição, mão de obra, manejos coletivos e comercialização de forma muito mais eficiente. Também viabiliza decisões reprodutivas baseadas em dados, como o descarte de matrizes improdutivas. Carneiro o ano todo produz partos diluídos e dificulta qualquer planejamento.

Quanto tempo deve durar a estação de monta?

Para a primeira estação, recomenda-se até 51 dias, o equivalente a três ciclos estrais de 17 dias. Em rebanhos já organizados, com histórico de descarte das ovelhas vazias, o período pode ser reduzido para 42 dias. Encurtar prematuramente, sem que o rebanho tenha fertilidade alinhada, pode resultar em baixa taxa de prenhez.

Quantos carneiros são necessários?

Em monta a campo, a referência é de 2 a 4% de carneiros aptos em relação ao número de ovelhas. Ou seja, para cada 100 ovelhas, de dois a quatro carneiros com aptidão reprodutiva confirmada. A proporção varia com a época do ano, o tamanho do potreiro e a condição dos animais. A definição precisa deve ser feita com o técnico.

Como saber se a estação está funcionando durante o processo?

Pintar o peito dos carneiros, com mudança de cor a cada 14 dias, é um dos métodos mais simples. Permite acompanhar quais ovelhas foram cobertas e em qual período. Uma estação em que os carneiros não estão marcando as ovelhas é sinal de problema que precisa ser investigado imediatamente.

O que fazer com as ovelhas que ficaram vazias?

A decisão depende do objetivo da propriedade e do histórico individual. Ovelhas que falham repetidamente são candidatas diretas ao descarte, pois sua presença reduz a eficiência do sistema e retarda a seleção. Ovelhas que falharam pela primeira vez após anos de bom desempenho merecem avaliação individual antes da decisão.

Referências

  1. MORAES, J. C. F. Sistema de controle da reprodução dos ovinos. Bagé: Embrapa Pecuária Sul, 2009. 21 p. (Embrapa Pecuária Sul. Documentos, 84).
  2. PIRES, B. C.; VIU, M. A. O.; LOPES, D. T.; PAULA, E. J. H.; CRUZ, M. M.; VIU, A. F. M. Métodos para elevar o ritmo reprodutivo dos ovinos. PUBVET, Londrina, v. 5, n. 11, Ed. 158, Art. 1071, 2011.
  3. POLI, C. H. E. C.; MONTEIRO, A. L. G.; SILVEIRA, V. C. P. Sistemas de produção de ovinos na região Sul do Brasil. In: SELAIVE-VILLARROEL, A. B.; OSÓRIO, J. C. S. (Ed.). Produção de ovinos no Brasil. São Paulo: Roca, 2017. cap. 11, p. 198-227.
  4. SECRETARIADO URUGUAYO DE LANA (SUL). Manual práctico de producción ovina. Montevidéu: SUL, 2018.

Temas relacionados

  • Ciclo estral
  • Fotoperíodo e sazonalidade reprodutiva
  • Efeito macho
  • Efeito luz
  • Coletes marcadores para carneiros
  • Exame andrológico
  • Estratégias reprodutivas de monta
  • Diagnóstico de gestação
  • Flushing
  • ECC como ferramenta nutricional
  • Pré-parto, manejo e cuidados
  • Rufião
  • Idade ao acasalamento
  • Intervalo entre partos
  • Desmame
  • Sincronização de cio
  • Seleção e descarte
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